03 dezembro 2009

artigo definido

gente nasce,
a gente anuncia a chegada.
gente chora,
a gente transforma em emoção palpável.
gente acorda,
a gente começa outro capítulo.
gente levanta, toma café, se arruma e sai,
a gente não regula os instintos.

gente não começa com a gente.

a gente admira a paisagem, sente o vento bater no rosto e repara nos trejeitos,
gente comenta da inflação.
a gente não explica e a risada conjunta se forma,
gente tenta fazer graça e ganha olhares recriminosos.
a gente não tem porquês,
gente tem síndorme de flagrante - sai arrumando álibis.
a gente se permite à comunicação telepática,
gente se reprime e fica na vontade.

a gente não sabe ser gente.



gente não deixa de ser a gente por carência de artigo definido feminino.
a gente não quer se entender por gente.

01 dezembro 2009

Filhinha do Papai

Quando a década de sessenta se vê por terminar, no enquadramento das celas de Vacaville, jovens estudantes da classe média partidários de ideais de esquerda propagavam o marxismo para os presidiários negros da Black Cultural Association. Mais tarde, esse mesmo grupo estudantil viria a formar o Exército Simbionês de Libertação – cautelosos até na escolha do nome, travavam uma luta contra o racismo, o sistema penitenciário e a monogamia.

Adotando a tática de ‘propaganda urbana’ para chegar à mídia, a fins de conseguir a adesão popular às suas propostas, praticou diversas ações selecionadas, coisas como assaltos, homicídios e um grande seqüestro, que acabou sendo a maior ação do grupo.

Filha do magnata estadunidense William Randolph Hearst, a jovem universitária Patricia Hearst, que depois abdicou seu nome e herança, foi seqüestrada e levada para um cativeiro, ou melhor, um armário aonde hoje alega ter sido violentada e sexualmente abusada. Em 1974 ela usava outros termos para se referir ao General Field Marshal Cinque - seu algoz, um dos líderes do ESL e, depois de apenas dois meses em aprisionada, seu amante. Ficou conhecida como a mulher de duas caras, irônica alusão às cirurgias plásticas as quais tinha se submetido.

Em uma referência à companheira de Che, Tânia, como quis ser chamada, juntou-se ao grupo inclusive em ações como o assalto em que foi flagrada pelas câmeras do Hiberna Bank – armada e gritando com os clientes da agência.

Mundialmente procurada pelas maiores organizações de segurança, foi alvo das mais diversas acusações que seriam facilmente passíveis de prisão perpétua. Quando finalmente foi presa, antes mesmo de formalmente interrogada, conversou com dois agentes em particular e foi convencida a mudar sua versão da história.

Em 1976, a pessoa mais procurada dos Estados Unidos acabou sendo sentenciada a trinta e cinco anos, mas, curiosamente, essa pena foi reduzida a sete longos anos na prisão. Até o presidente Jimmy Carter acabou encurtando sua estadia naquela cela e, num total de vinte e um meses, a filha do magnata, Patricia Hearst, voltou ao luxuoso e confortável mundo de seu pai, aonde se casou com seu antigo segurança e hoje tem dois filhos.

08 novembro 2009

o negócio é amar

Tem gente que ama, que vive brigando
E depois que briga acaba voltando
Tem gente que canta porque está amando
Quem não tem amor leva a vida esperando
Uns amam pra frente, e nunca se esquecem
Mas são tão pouquinhos que nem aparecem
Tem uns que são fracos, que dão pra beber
Outros fazem samba e adoram sofrer
Tem apaixonado que faz serenata
Tem amor de raça, amor vira-lata
Amor com champagne, amor com cachaça

Amor nos iates, nos bancos de praça
Tem homem que briga pela bem-amada
Tem mulher maluca que atura porrada

Tem quem ama tanto que até enlouquece
Tem quem dê a vida por quem não merece
Amores à vista, amores à prazo

Amor ciumento que só cria caso
Tem gente que jura que não volta mais
Mas jura sabendo que não é capaz
Tem gente que escreve até poesia
E rima saudade com hipocrisia

Tem assunto à bessa pra gente falar
Mas não interessa o negócio é amar


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Carlos Lyra


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marnué?

05 novembro 2009

(bom) dia

bom dia o caralho!
acordar com aquele pi-pi do despertado furreca, mas que em luzinha pra acender e ver a hora de madrugada não é nada um bom jeito de começar o dia. não me conformo com o toque de acordar, acho injusto.

os minutos parece que se atropelam naquele tempo entre despertar e sair de casa e sempre há a sensação de não ter feito tudo ou arranjado tudo na mala, ou dá a certeza agoniante do atraso.

carro quebra, engarrafamento irrita, calor anestesia.
os imprevistos e desagrados vão se sobrepondo e, quando você apenas não está afim, se passa por grosso, estúpido, imprestável...
trabalho para arrumar a cara numa careta de repressão não é problema, mas abrir a boca e realmente se interessar não. isto já é exigência grande.

os raros sorrisos não forçados ficam, então, encarregados de cobrir toda a validade da jornada e a vontade fica só de que aquele termine para que comece outro.






será?
válido mais seria chegar ao conforto de novo e abolir qualquer tipo de preoblematização.

no cafofo é assim.

27 outubro 2009

la playa

briga de sol e chuva e não parou
os trajes iam se adaptando, a música continuou e os pés não quiseram se aquietar
as pálpebras adquiriram pressão nervosa de ansiedade insegura de coisa nova
calafrios e nervosinho na barriga, um sorriso besta que não soube se fazer esconder
um cruzamento de olhares vários, procurando um só
nada de fumo ou qualquer coisa desse gênero, mas que os lábios se ressecaram, ah... isso sim
não é nenhum fenômeno extraordinário, mas mais que ordinário
ah mais, bem, bem mais...

a graça que eu vi naqueles olhos brilhantes de alegria
o sorriso gostoso
o tom inesperado de voz
e as surpresas vinham atropelando os achismos
e o fundo parecia que esfumaçou, como que de propósito
e, então, eu tropecei

17 outubro 2009

. Fim de Tarde

Alô?
Olá. Como tá?
Querendo alugar um filme.
Parece interessante...
Então, na videoteca em vinte?
Não esquece das minhas coisas, que ficaram esquecidas contigo.

A casualidade incorporada denotava tons pastéis naquele fim de tarde. A mochila indicava impulsividade, um sinal de ousadia implícita.

Bom dia, Seu João.
Que temos hoje?
Pressa. Tome aqui, do jornal.
Um sorriso de despedida, que continuou naqueles ábios pelas ruas de travessa até lá.

E aí? Acho que estou mais afim de coisa leve.
Mesmo? Tinha pensado naquele que saiu, a crítica elogiou bastante até.
Você que sabe...
E uma pausa de fala perpetuou por poucos demorados segundos.

De quê?
Dessas coisas muito alternativas e pensantes. Quero besteirol, pastelão, desenho animado.
Escolhe você então... Vou comprando comida na lojinha aqui do lado.
Tá bom.
O que foi?
Foi o quê?
Esse seutom.
Nada, só que você tinha dito que íamos jantar naquele lugarzinho novo.
Mas iremos, se você quiser ainda.
Nossa, agora não precisa mais.
Iremos. Foi só uma ideia besta que me ocorreu.
Você paga a conta.
Estava mesmo lhe devendo daquele outro dia. Viu? Ótima desculpa.
É, talvez.

O caminho longo e silencioso trouxe aqueles pensamentos exagerados e compulsivos e engasgados amígdalas abaixo. E não mais subiu.

16 outubro 2009

BOOM BOOM DAQUI, BUMBUM DE LÁ

Vem o ano de mil novecentos e quarenta e seis e junto o comunicado oficial veio, notificando a todo um contingente que, de suas casas, deveriam se mudar. A aboletação geral não deixou que, a princípio, percebessem o desconforto que estaria por vir. Do atol de Bikini para o de Rongerik, de casa para terras malditas.

Não bastava todo o estrago de duas guerras de proporções tais quais foram. O desprezo estadunidense quanto a quaisquer danos que uma experiência nuclear podia eclodir, só porque querer entender a magnitude de sua nova arminha, ainda foi apoiado pela Organização das Nações Unidas. Este último adjetivo da sigla acabou não sendo tão imparcial assim ao apoiar uma ação sem precedentes parecidos. Obviamente haveriam registros fotográficos oficiais para uma operação de tal magnitude, mas as filmagens de tais testes acabaram por se perder ou estragar numa coincidência incrível.

Em outras areias, distantes daquelas, uma questão causava comoção de proporções similares: a mais nova peça do vestiário feminino, o biquíni. Dentro de uma sociedade ainda coberta de pudores e vergonhas, as curvas começam a se descobrir e o rebuliço em torno daqueles quatro triângulos de nada – considerado, por muitos, dignos de mulheres desrespeitosas – foi tal, que o compararam a termos nucleares. O precursor átomo que o diga. Este foi nomeado assim por conta de sua pequenez

Aos estilistas franceses e à stripper - que se predispôs a se expor para o mundo usando a novíssima invenção que vinha estampada como notícia de jornal – devem, os brasileiros, agradecer enormemente. Não só, como se já não fosse o bastante, pela pele à mostra ilustrando as praias do país, mas por todo o mercado que se deslanchou. Fundiram-se a criatividade de um povo tropical e uma das maiores descobertas do século. Com isso os modelos foram ganhando novos formatos e estilos, panos e acessórios e o conjuntinho praia acaba por se incrementar, acalantando os olhos mareados e desprendendo os lábios uns dos outros naquela cena fotográfica perfeitamente harmoniosa.