13 novembro 2008

já não sabia mais o que era-lhe mais incômodo: a dor que sentia no corpo - aquela ânsia que interiorizou-se e tomou forma patológica e não quis abandoná-la. talvez nem fosse isso. podia ser o medo, grande pavor de dormir, só por saber que haveria de acordar, eventualmente, e enfrentar aquilo tudo lá de fora, aquelas coisas chatas que se acumulam pela preguiça, falta de vontade, sentimento de obrigação.
odiava quando davam-lhe ordens. pra quê?
peça. não que vá fazer instantaneamente e da forma pedida. só fará quando for conveniente e da maneira que mais parecer correta, seja essa qual for.

quem sabe? particularmente acho que nada disso era. o horizonte, antes desconhecido e intrigante, havia se contraído e, as migalhas de sonhos que restaram, não satisfaziam mais o apetite.
o ordinário marca agora presença e não pensa em esvair-se por aí. parece até que gostou, se acomodou, e ela junto.

cômodo não é mais um adjetivo qualquer que a língua lhe disponibilizou - é lei do seu secreto e esquisito bem estar.

a música não tem mais melodia, o poema perdeu a rima e o olhar já não brilha. o que se perdeu? o que se foi? o que ficou?



o silêncio, (in)cômodo de muitos.

10 novembro 2008

e aí?

person 1: how many do you want?
person 2: how many do u want to give to me?
person 1 thinks, keep thinking and finally anwsers: ham..how many you can get?
person 2 laughs and says: wow


person 1 already distressed asks: so...?



so...?

21 outubro 2008

equilibrista

Nada mais: o assovio sacana do pedreiro do outro lado da calçada; a flauta do menino que, humildemente, tem uns trocados poucos pra gastar; a risada contagiosa das crianças que passam, na volta da escola, com aquele ar de novidade; a mesa, repleta de amigos, com uma cerveja gelada; o céu, que traça desenhos indescritíveis; o som das músicas sussurrando, ao pé do ouvido, palavras cuidadosas.

Isto tudo não importa, não interessa, não causa pingo algum de impacto. Os vai-e-vens do vento não movimentam as folhas caídas pelo chão. Tudo permanece intacto, inerte e monótono.


O vislumbrar de um sonho continua opaco e sêco. Os dedos esticam-se, procurando tocar o impalpável. Troca-se o anel de dedo, as fronhas de cama, os retratos enquadados por nostálgicas lembranças de cômodo.

O que foi? Não sei se era pra compreender; se é pra testar; se é pra sofrer; se pra viver ou morrer.
Não me fiz clara ainda com toda essa melancolia?!
É apelo. É desespero. É tudo que não sei dar nome. É uma rua cheia de melancolia, onde perco o prumo e o destino tropeça na dúvida do querer e do poder.

Posse sua, sem fôrma, formando estibrilhos estraçalhados por tantos temores incabíveis nas retas curvas da letra jogada no papel.
Não misture os vocábulos, nem preseve-me de qualquer chama que ouses soprar.


Perceba que meus erros são seus - cada um deles é seu.
Não denomino como culpa, chamo de impotência de ter meus próprios, de atravessar o limite que ainda nos une, a corda bamba em que tento, inutilmente, me equilibrar e que distingüe o que é e a ilusão.
Dê-me a mão. Não deixes que eu caia sem proteção, que caia na tentação e tenha que pedir-te perdão, novamente.

29 setembro 2008

o que te estraga é só esse jeito pomposo de achar previsível o que, nem sempre, é.
não entregue sem hesitar; não se mantenha nessa posição por muito tempo.
sei que muitos a acham charmosa, classuda, elegante - meros espectadores do seu showzinho.
um bom crítico veria as falhas nas suas esquinas - totalmente inseguras de onde a curva toma forma.

besta.
era este o patamar que pretendia chegar?
bom, espero que toda essa mesquinharia traga-te um conforto bem grande, pois precisarás.



vou ali fumar um cigarro, tá?

19 setembro 2008

eliem

Coitado. A pior das sensações era a de sentir-se inútil, imprestável. Não lhe era suficiente a boa vontade, o querer ajudar e não saber nem por onde começar.
Era estabanado. Também, como havia de ser.

Seus dias eram todos regrados e calculados dentro de si, onde a memória não lhe falhava. Acorda cedo, cerca de seis, sete da manhã. Pega o jornal - gosta de estar muito bem informado -, mas nem sempre consegue lê-lo o quanto queria. Toma seu café de todos os dias e começa o ritual de saída. Abrir a gaveta, pegar uma bermuda; em outra, a meia; até que o figurino fique todo completo.

Sai então de casa, cumprimentando metade das pessoas que passam. Praticamente fora criado ali e, agora, com seus cinqüênta e sete anos, é figura batida pela redondeza. Desce a rua e ruma pra sua caminhada matinal, diurna e sagrada.

As mais diversas pessoas passam e alguns,que o conhecem, chegam a achá-lo antipático ou até mesmo mal educado. Ele nem sempre cumprimenta as pessoas. Mas garanto: nunca foi por falta de querer.

Voltando, pára no bar de esquina - onde já é quase sócio, de tanto que fica lá. Quando passa é um alvoroço só, gritando seu nome, chamando-o pra só uma cervejinha. Essa se estende e, quando percebe, foram-se inúmeras durante papos com um ou outro, ou sozinho mesmo.

Tem um lado carinhoso e atencioso que faz com que ele sempre compre alguma coisa - seja uma garrafinha de água de coco ou outra coisa boba assim - pra levar para sua mãe, que é sua vizinha. Não tem é muita paciência. Toca a campainha e, antes mesmo que alguém pudesse alcançar a porta para atendê-la, ele já pôs o presentinho em uma das cadeiras dispostas na varandinha de entrada e rumou para casa...

Pela tarde, tira um cochilo. Não que esteja ou se sinta velho, muito pelo contrário. Sua cabeça é acelerada demais, seu corpo não consegue ficar quieto por muito tempo, mas ele sabe das limitações que tem. Entende que aquele mundo ao redor dele, aquele que já mapeou mentalmente, é seu limite. Esse sono é mais pra descansar a cabeça, não surtar.

Mais tarde ele volta a se arrumar: uma blusa branca(só tem blusas brancas, que é pra não ter como confundir a cor), uma calça jeans, cueca, meia e sapato. Gosta de ficar bonito, e fica.
Repete a descida da rua, procurando um bar para beber. Conhece todos os existentes aqui por perto. Vai de um pra outro procurando companhia para beber. É como se fosse um ópio que o faz conseguir levar as coisas.

Muitos o chamam de alcoolatra, eu digo que, dentro de suas condições, ele se vira e passa seus dias feliz, como seria difícil ver outrem conseguindo ter.

17 setembro 2008

sem

se tudo que passamos não lhe satisfez,
desculpe-me... não soube enxergar tuas carências.
acaso tenha trocado seu nome, confundido as palavras,
queria que acreditasse que é puro nervosisto trazido com a lembrança do teu rosto.
quando teu cheiro deixou de marear meus dias
pedi que regressasse, daonde quer que estivesses, imediatamente.

a dobradura da roupa tem outra forma;
o amassado do travesseiro fica diferente;
a música troca de ritmo, e talvez até de tom;
a pressão chega, inevitavelmente - atordoa.


toco-te sem sentir,
lembro sem querer esquecer
e aqueço o fogo da panela, esperando chegar o fim do dia.

05 setembro 2008

times of choices:

daqui em diante, não há volta.
aviso-te logo para que não me venha com mazelas dengosas.
pode vir depois, chegue atrasada, mas venha.
por favor, não hesite, não duvide, não fraqueje.

conheço bem esse seu duelo pessoal,
sei exatamente o ponto que lhe é incômodo..
então, confie: o avesso, não o contrário.