20 maio 2009

pesca

que vazio é esse que preenche tudo?
que coisas ocas são essas que tanto estrondo fazem?
que nada é esse que completa tanto?
que solidão é essa que aconchega?

esbanjei clichês, abusei das cafonices e sucumbi o brega.

troquei a calça pelo vestido cinza, 
que há muito estava ali guardado.
fucei todas as gavetas e fui colhetando batons, sombras, pincéis.
apriselhei as mechas de uma forma inusitada.
subi na sandália e penduriquei-me com coisas prata.

faltava ainda.
o horário marcado ainda não chegara e já estava bela, a espera.
telefone veio avisar que iria-te atrasar.
eu, de paciência não muito latente, já bufava inquieta.

os botões do controle já estavam afundados de tanta troca de canais.
programação ruim essa, pensei.
acho que procurava-te na tela.
procurava, procurava...

e nada de bozinha anunciando tua chegada.

enfim o interfone gritou e aliviei-me.
uma última passadinha de perfume e lá estava, na portaria.
olhei-te com desprezo, intolerância, revolta.

desmanchei toda raiva quando me dei conta.
enganaste-me e adorei.

as velas desconcertantes anunciavam a grande noite.
o jazz de fundo acalentava suas palavras,
e me entreguei a esse charme incondolente e devastador que pairava por ali.

fisgaram-me.
e agora?

15 maio 2009

PRESENTE DE ANIVERSÁRIO

Acordou logo com um sorriso, daqueles bonitos, de encher a cara de coragem e exibir os dentes sem nem perceber. Direto encaminhou-se  para a cozinha. No caminho, a sala. Em cima da mesa pequena de centro um embrulho e um bilhete em cima. Como esse não era dia ordinário, esquivou-se sem titubear. Embrulho feito  à mão, era de se notar. Caprichado, porém. 

Aquele papel lhe saltou aos olhos e subitamente as letras já quase se encostavam aos cílios. ‘Espero que goste. Com carinho, Eu’. Aqueles vocábulos só enriqueceram sua curiosidade. Meticulosamente, como é de seu feitio, foi descolando cada dobradura daquele quase-origami. O papel azul, com desenhos incompreensíveis escondia um segredo. Precisava desvendá-lo.

Por um momento foi tomado por um surto raivoso, de ansiedade, de uma agonia de aniversariante. Foi conjecturando mentalmente, e expressava nos olhares, nas sutis movimentações das suas bochechas, dos seus lábios, o que tanto podia ser. Depois chegou o medo: de não gostar, de ser incômodo, de ser aquém das expectativas, de ser menos.

Convenceu-se então de que não, só poderia gostar. Não faria sentido.

As cores foram saltando aos olhos e as quinas junto.

De repente, aquele olhar apreensivo se escondeu depois de ser bruscamente expulso por um olhar esbugalhado, brilhante, que acompanhava um abrir de boca impressionante, até.

Pegou-a, abraçou-a junto ao peito com um carinho tão imenso quanto indescritível. Foi quando o turbilhão de nostalgias saltitantes deu aquele rosto um contentamento contente.

Correu de volta ao quarto, fechou a porta e, em sua cômoda, cuidadosamente, depositou-a. Fica bem aqui, pensou.

Por fim, foi a vez do misterioso sorriso envolvente. Esse permaneceria pro resto do dia. O conforto trouxe calma e a calma fez seu papel de ajeitar.

28 abril 2009

Por não estarem distraídos...

Clarisse Lispector

 

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos!

Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

09 abril 2009

vieste e fui

olhaste e não reparei
paraste e notaste - 
vi-te levemente ao longe

lenga lenga longa sem porquê

fui a um desconhecido
pedi-lhe meia dúzia de informações
alertou-me da bifurcação à frente
mal podia reconhecer-te
com olhos embriagados
dessa turbulência urbana

desta vez parei
e fiquei

na curta reta de chegada
todas as perspicácias
todos os esbarrões desfarçadamente propositais
tudo que se aliou e permaneceu instigando

meus bons dias desejam
ansiosamente aqueles que retribui
garantindo-me que assim será

os caminhos nos tomam tempo
e espero-te com a mesa posta
com um medroso sorriso 
que pula-me canto-da-boca afora
e um até logo apertado
sem muito querer

pancada forte anuncia
os grossos e apressados pingos 
que inundariam o trânsito 
de fim de tarde
de fim de semana
de feriado

aquela úmida sensação
de sentir-se só
mais uma anônima
desabrigada de seu abraço

o sol se esfumaça caindo
a ânsia levanta
como se erguesse
a lua que te traz 
acalmando todo o desejo contido
as vontades caladas
as falas interrompidas
os suspiros tremidos

não satisfazem-me notícias de jornal
desabafos de terapia
relatórios de esposa
casos de amiga


pego o melhor dos vinis
levanto a agulha
e encaixo o disco 
como quem põe criança pra dormir

espero os primeiros timbres
miro os olhos nos teus
disponho a mão que convida-te

só uma dança, digo acanhada

preciso do toque dos seus dedos
de um pedido atendido
desse encontro de pele

atormenta-me de alegria banal
dá-me calafrios bobos
perpetua-te nos meus braços
no infinito de uma canção

21 março 2009

ain't got

it must be a really bad fuckying joke.




embriaguez boba de encanto
calor envolvente, de tesão
nostalgia contagiosa
ressaca de você

- eu não bebi hoje, ainda.

07 março 2009

blue star

veio assim,
como quem começa do ponto final.
vagarosas tardes, noites, madrugadas e manhãs sendo falsas espontaneidades
que cruzaram a linha da transparência.

como se sente?
fosse só isto, 
tome seu rumo de volta -

não suporto esses esgotados discursos.

silencio os lábios
que é pra poupar qualquer entendimento equivocado.
os tons das minhas notas 
adquiriram uma tensão notável.
estrelas ilustrando a paisagem
turva de tentar entender.

é melhor guardar pra depois,
ainda não é hora,
você me entende.

27 fevereiro 2009

baile de máscaras

o mundo está louco, é o que dizem por aí.
o mundo está se esgotando, lê-se diariamente.
não me incomoda isso, sabia? ah, tudo acaba um dia. essa idéia de eternidade nunca me convenceu muito.
o que me entristece é perceber que a poesia se esvaiu, se dissolveu nas mãos dos compositores e é jogada de boca a fora com um desdenho agoniante.

essa urgência jovial de abraçar o poste, o vento, a sombra, não combina comigo. gosto da brincadeira, do caminho, da descoberta, da conquista, do difícil, do que exige mais do que é só impulso.
já fui parte integrante e atuante deste motim - até aparecer um certo alguém que me mostrou um outro caminho, tão mais sedutor e envolvente que nem titubeei. mas isto não é sobre ela, nunca foi.


liberdade, liberdade. carrego até bandeirinhas ilustrativas.
pior de tudo é pensar que sim, a culpa - se ela existe - eu que carrego. diria eu, fosse moça de externar pensamentos, que fez-se demais, sem a menor necessidade. quisera eu acalmar e tirar os pedestais, distribuídos pela minha própria pessoa, que pus jogados por aí, dispostos numa ordem quase inintendível para outrens.

se a máscara cair, não se apavore e nem demonstre - sorrindo, graciosamente, diga que é carnaval.
afinal, há tanto folclore por aí que não há de se espantar quando comentarem que um novo chegou pra deixar a multidão boqueaberta.

não vem, que a linha ficou ali, bem pra trás.