20 maio 2009
pesca
15 maio 2009
PRESENTE DE ANIVERSÁRIO
Acordou logo com um sorriso, daqueles bonitos, de encher a cara de coragem e exibir os dentes sem nem perceber. Direto encaminhou-se para a cozinha. No caminho, a sala. Em cima da mesa pequena de centro um embrulho e um bilhete em cima. Como esse não era dia ordinário, esquivou-se sem titubear. Embrulho feito à mão, era de se notar. Caprichado, porém.
Aquele papel lhe saltou aos olhos e subitamente as letras já quase se encostavam aos cílios. ‘Espero que goste. Com carinho, Eu’. Aqueles vocábulos só enriqueceram sua curiosidade. Meticulosamente, como é de seu feitio, foi descolando cada dobradura daquele quase-origami. O papel azul, com desenhos incompreensíveis escondia um segredo. Precisava desvendá-lo.
Por um momento foi tomado por um surto raivoso, de ansiedade, de uma agonia de aniversariante. Foi conjecturando mentalmente, e expressava nos olhares, nas sutis movimentações das suas bochechas, dos seus lábios, o que tanto podia ser. Depois chegou o medo: de não gostar, de ser incômodo, de ser aquém das expectativas, de ser menos.
Convenceu-se então de que não, só poderia gostar. Não faria sentido.
As cores foram saltando aos olhos e as quinas junto.
De repente, aquele olhar apreensivo se escondeu depois de ser bruscamente expulso por um olhar esbugalhado, brilhante, que acompanhava um abrir de boca impressionante, até.
Pegou-a, abraçou-a junto ao peito com um carinho tão imenso quanto indescritível. Foi quando o turbilhão de nostalgias saltitantes deu aquele rosto um contentamento contente.
Correu de volta ao quarto, fechou a porta e, em sua cômoda, cuidadosamente, depositou-a. Fica bem aqui, pensou.
Por fim, foi a vez do misterioso sorriso envolvente. Esse permaneceria pro resto do dia. O conforto trouxe calma e a calma fez seu papel de ajeitar.
28 abril 2009
Por não estarem distraídos...
Clarisse Lispector
Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos!
Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.
09 abril 2009
vieste e fui
21 março 2009
ain't got
07 março 2009
blue star
27 fevereiro 2009
baile de máscaras
o mundo está louco, é o que dizem por aí.o mundo está se esgotando, lê-se diariamente.não me incomoda isso, sabia? ah, tudo acaba um dia. essa idéia de eternidade nunca me convenceu muito.o que me entristece é perceber que a poesia se esvaiu, se dissolveu nas mãos dos compositores e é jogada de boca a fora com um desdenho agoniante.essa urgência jovial de abraçar o poste, o vento, a sombra, não combina comigo. gosto da brincadeira, do caminho, da descoberta, da conquista, do difícil, do que exige mais do que é só impulso.já fui parte integrante e atuante deste motim - até aparecer um certo alguém que me mostrou um outro caminho, tão mais sedutor e envolvente que nem titubeei. mas isto não é sobre ela, nunca foi.liberdade, liberdade. carrego até bandeirinhas ilustrativas.pior de tudo é pensar que sim, a culpa - se ela existe - eu que carrego. diria eu, fosse moça de externar pensamentos, que fez-se demais, sem a menor necessidade. quisera eu acalmar e tirar os pedestais, distribuídos pela minha própria pessoa, que pus jogados por aí, dispostos numa ordem quase inintendível para outrens.se a máscara cair, não se apavore e nem demonstre - sorrindo, graciosamente, diga que é carnaval.afinal, há tanto folclore por aí que não há de se espantar quando comentarem que um novo chegou pra deixar a multidão boqueaberta.não vem, que a linha ficou ali, bem pra trás.