27 outubro 2009

la playa

briga de sol e chuva e não parou
os trajes iam se adaptando, a música continuou e os pés não quiseram se aquietar
as pálpebras adquiriram pressão nervosa de ansiedade insegura de coisa nova
calafrios e nervosinho na barriga, um sorriso besta que não soube se fazer esconder
um cruzamento de olhares vários, procurando um só
nada de fumo ou qualquer coisa desse gênero, mas que os lábios se ressecaram, ah... isso sim
não é nenhum fenômeno extraordinário, mas mais que ordinário
ah mais, bem, bem mais...

a graça que eu vi naqueles olhos brilhantes de alegria
o sorriso gostoso
o tom inesperado de voz
e as surpresas vinham atropelando os achismos
e o fundo parecia que esfumaçou, como que de propósito
e, então, eu tropecei

17 outubro 2009

. Fim de Tarde

Alô?
Olá. Como tá?
Querendo alugar um filme.
Parece interessante...
Então, na videoteca em vinte?
Não esquece das minhas coisas, que ficaram esquecidas contigo.

A casualidade incorporada denotava tons pastéis naquele fim de tarde. A mochila indicava impulsividade, um sinal de ousadia implícita.

Bom dia, Seu João.
Que temos hoje?
Pressa. Tome aqui, do jornal.
Um sorriso de despedida, que continuou naqueles ábios pelas ruas de travessa até lá.

E aí? Acho que estou mais afim de coisa leve.
Mesmo? Tinha pensado naquele que saiu, a crítica elogiou bastante até.
Você que sabe...
E uma pausa de fala perpetuou por poucos demorados segundos.

De quê?
Dessas coisas muito alternativas e pensantes. Quero besteirol, pastelão, desenho animado.
Escolhe você então... Vou comprando comida na lojinha aqui do lado.
Tá bom.
O que foi?
Foi o quê?
Esse seutom.
Nada, só que você tinha dito que íamos jantar naquele lugarzinho novo.
Mas iremos, se você quiser ainda.
Nossa, agora não precisa mais.
Iremos. Foi só uma ideia besta que me ocorreu.
Você paga a conta.
Estava mesmo lhe devendo daquele outro dia. Viu? Ótima desculpa.
É, talvez.

O caminho longo e silencioso trouxe aqueles pensamentos exagerados e compulsivos e engasgados amígdalas abaixo. E não mais subiu.

16 outubro 2009

BOOM BOOM DAQUI, BUMBUM DE LÁ

Vem o ano de mil novecentos e quarenta e seis e junto o comunicado oficial veio, notificando a todo um contingente que, de suas casas, deveriam se mudar. A aboletação geral não deixou que, a princípio, percebessem o desconforto que estaria por vir. Do atol de Bikini para o de Rongerik, de casa para terras malditas.

Não bastava todo o estrago de duas guerras de proporções tais quais foram. O desprezo estadunidense quanto a quaisquer danos que uma experiência nuclear podia eclodir, só porque querer entender a magnitude de sua nova arminha, ainda foi apoiado pela Organização das Nações Unidas. Este último adjetivo da sigla acabou não sendo tão imparcial assim ao apoiar uma ação sem precedentes parecidos. Obviamente haveriam registros fotográficos oficiais para uma operação de tal magnitude, mas as filmagens de tais testes acabaram por se perder ou estragar numa coincidência incrível.

Em outras areias, distantes daquelas, uma questão causava comoção de proporções similares: a mais nova peça do vestiário feminino, o biquíni. Dentro de uma sociedade ainda coberta de pudores e vergonhas, as curvas começam a se descobrir e o rebuliço em torno daqueles quatro triângulos de nada – considerado, por muitos, dignos de mulheres desrespeitosas – foi tal, que o compararam a termos nucleares. O precursor átomo que o diga. Este foi nomeado assim por conta de sua pequenez

Aos estilistas franceses e à stripper - que se predispôs a se expor para o mundo usando a novíssima invenção que vinha estampada como notícia de jornal – devem, os brasileiros, agradecer enormemente. Não só, como se já não fosse o bastante, pela pele à mostra ilustrando as praias do país, mas por todo o mercado que se deslanchou. Fundiram-se a criatividade de um povo tropical e uma das maiores descobertas do século. Com isso os modelos foram ganhando novos formatos e estilos, panos e acessórios e o conjuntinho praia acaba por se incrementar, acalantando os olhos mareados e desprendendo os lábios uns dos outros naquela cena fotográfica perfeitamente harmoniosa.

18 setembro 2009

pó dia

só por hoje podiam os zombidos se unificarem num distante ínfimo
só por hoje podia-se calçar a sapatilha, o tutu e dançar naquele balanço intensamente dramático
só por hoje podia clarear, ao fim de uma ducha rápida, um resquício de sol pra se admirar no fim da tarde
só por hoje podia o molejo se ordinarizar e os requebrados sorrisos podiam parecer próprios
só por hoje podiam não recriminar a preguiça
só por hoje podia abolir-se qualquer princípio de culpa
só por hoje podia-se permitir

só por hoje podia
só podia por hoje
podia por hoje só
por hoje só podia
podia só por hoje

só por hoje, podia?

14 setembro 2009

vaso seco

você sabe o que acontece a cada pausa que me impõe?
as cores se acinzentam, as lindas flores encolhem, os sorrisos se fecham e o edredom é entendido sobre o corpo jogado naquele recorte de cama.
lançou um feitiço que me tomou e descuidou.
dilacerou e saiu com a porta aberta.
me plantou e, quando avistou outra, nem titubeou.
murchei, sequei, esperei.
você não veio.
ou talvez até sim, mas agora...
agora já foi.

03 setembro 2009

oh-hoh

como se a visão latejasse
o ritmo ouvido tivesse quebras inesperadas
os sentidos palpáveis se aguçassem,
intensificando cada corte de cena
agoniante
magnética
imprópria
encantadora
instigante


- ei, esse diálogo está errado!
- sim senhora. mas a que se deve tal imperatividade no locus?
- pergunto eu, então, a que se deve tal ponderamento?
- deve de nada, não. tão pouco deve de ironizar.
- mesmo? então, por conseguinte, a que se deve esse atalho indiscreto?
- sobras de cartas não encaminhadas, resquícios flutuantes, quinas de hesitações.
- ah sim.
- viu?
- o quê?
- não me faça ter que dizer.
- seria interessante...
- boa escolha de adjetivo.
- vai demorar?
- eis aí seu por quê.
- perguntei o quê e não o por.
- esse aí? saiu ali, todo camuflado.
- agora vai ser sempre assim, é?
- tá parecendo...
- mesmo, mesmo?
- não fui eu quem coloriu o mapa.

18 agosto 2009

lost

fugi. saí correndo deste ambiente tão familiar. me sufoquei com a própria essência.
não posso me dizer que me perdi pelo caminho já que nunca houve rota programada.
esperava um lapso de ideia repentina que me agradaria; esperava algum esbarrão ocasional que trouxesse alegria; esperava novidade.

as ruas continuavam as mesmas, as pessoas não me impressionavam e o tempo se delongava com meus passos perdidos.
pulei pra dentro de um ônibus, ansiando que ele me trouxesse novos sabores.
ao desembarcar, avistava apenas mais um bando de situações já conhecidas.
o tédio só sabia crescer e o sorriso se tornava mais remoto a cada instante.
a angústia passou para um estado praticamente insuportável de sentir e, a esta hora, me encontrava presa naquela situação.

o girar do pulso e o abaixar da cabeça procuravam minutos mais apressados do que o relógio estava disposto a exibir.

senti-me saudosa daquela monotonia do cômodo de dez paredes. ao menos ele não me exigia o fingimento, o sorriso forçado.

corri. corri e não foi pouco.
faça apenas um favor: só não me indague sobre o destino. irônicamente, acho que você o conhece bem.