Nada mais: o assovio sacana do pedreiro do outro lado da calçada; a flauta do menino que, humildemente, tem uns trocados poucos pra gastar; a risada contagiosa das crianças que passam, na volta da escola, com aquele ar de novidade; a mesa, repleta de amigos, com uma cerveja gelada; o céu, que traça desenhos indescritíveis; o som das músicas sussurrando, ao pé do ouvido, palavras cuidadosas.
Isto tudo não importa, não interessa, não causa pingo algum de impacto. Os vai-e-vens do vento não movimentam as folhas caídas pelo chão. Tudo permanece intacto, inerte e monótono.
O vislumbrar de um sonho continua opaco e sêco. Os dedos esticam-se, procurando tocar o impalpável. Troca-se o anel de dedo, as fronhas de cama, os retratos enquadados por nostálgicas lembranças de cômodo.
O que foi? Não sei se era pra compreender; se é pra testar; se é pra sofrer; se pra viver ou morrer.
Não me fiz clara ainda com toda essa melancolia?!
É apelo. É desespero. É tudo que não sei dar nome. É uma rua cheia de melancolia, onde perco o prumo e o destino tropeça na dúvida do querer e do poder.
Posse sua, sem fôrma, formando estibrilhos estraçalhados por tantos temores incabíveis nas retas curvas da letra jogada no papel.
Não misture os vocábulos, nem preseve-me de qualquer chama que ouses soprar.
Perceba que meus erros são seus - cada um deles é seu.
Não denomino como culpa, chamo de impotência de ter meus próprios, de atravessar o limite que ainda nos une, a corda bamba em que tento, inutilmente, me equilibrar e que distingüe o que é e a ilusão.
Dê-me a mão. Não deixes que eu caia sem proteção, que caia na tentação e tenha que pedir-te perdão, novamente.
21 outubro 2008
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