18 setembro 2009

pó dia

só por hoje podiam os zombidos se unificarem num distante ínfimo
só por hoje podia-se calçar a sapatilha, o tutu e dançar naquele balanço intensamente dramático
só por hoje podia clarear, ao fim de uma ducha rápida, um resquício de sol pra se admirar no fim da tarde
só por hoje podia o molejo se ordinarizar e os requebrados sorrisos podiam parecer próprios
só por hoje podiam não recriminar a preguiça
só por hoje podia abolir-se qualquer princípio de culpa
só por hoje podia-se permitir

só por hoje podia
só podia por hoje
podia por hoje só
por hoje só podia
podia só por hoje

só por hoje, podia?

14 setembro 2009

vaso seco

você sabe o que acontece a cada pausa que me impõe?
as cores se acinzentam, as lindas flores encolhem, os sorrisos se fecham e o edredom é entendido sobre o corpo jogado naquele recorte de cama.
lançou um feitiço que me tomou e descuidou.
dilacerou e saiu com a porta aberta.
me plantou e, quando avistou outra, nem titubeou.
murchei, sequei, esperei.
você não veio.
ou talvez até sim, mas agora...
agora já foi.

03 setembro 2009

oh-hoh

como se a visão latejasse
o ritmo ouvido tivesse quebras inesperadas
os sentidos palpáveis se aguçassem,
intensificando cada corte de cena
agoniante
magnética
imprópria
encantadora
instigante


- ei, esse diálogo está errado!
- sim senhora. mas a que se deve tal imperatividade no locus?
- pergunto eu, então, a que se deve tal ponderamento?
- deve de nada, não. tão pouco deve de ironizar.
- mesmo? então, por conseguinte, a que se deve esse atalho indiscreto?
- sobras de cartas não encaminhadas, resquícios flutuantes, quinas de hesitações.
- ah sim.
- viu?
- o quê?
- não me faça ter que dizer.
- seria interessante...
- boa escolha de adjetivo.
- vai demorar?
- eis aí seu por quê.
- perguntei o quê e não o por.
- esse aí? saiu ali, todo camuflado.
- agora vai ser sempre assim, é?
- tá parecendo...
- mesmo, mesmo?
- não fui eu quem coloriu o mapa.