28 abril 2009

Por não estarem distraídos...

Clarisse Lispector

 

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos!

Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

09 abril 2009

vieste e fui

olhaste e não reparei
paraste e notaste - 
vi-te levemente ao longe

lenga lenga longa sem porquê

fui a um desconhecido
pedi-lhe meia dúzia de informações
alertou-me da bifurcação à frente
mal podia reconhecer-te
com olhos embriagados
dessa turbulência urbana

desta vez parei
e fiquei

na curta reta de chegada
todas as perspicácias
todos os esbarrões desfarçadamente propositais
tudo que se aliou e permaneceu instigando

meus bons dias desejam
ansiosamente aqueles que retribui
garantindo-me que assim será

os caminhos nos tomam tempo
e espero-te com a mesa posta
com um medroso sorriso 
que pula-me canto-da-boca afora
e um até logo apertado
sem muito querer

pancada forte anuncia
os grossos e apressados pingos 
que inundariam o trânsito 
de fim de tarde
de fim de semana
de feriado

aquela úmida sensação
de sentir-se só
mais uma anônima
desabrigada de seu abraço

o sol se esfumaça caindo
a ânsia levanta
como se erguesse
a lua que te traz 
acalmando todo o desejo contido
as vontades caladas
as falas interrompidas
os suspiros tremidos

não satisfazem-me notícias de jornal
desabafos de terapia
relatórios de esposa
casos de amiga


pego o melhor dos vinis
levanto a agulha
e encaixo o disco 
como quem põe criança pra dormir

espero os primeiros timbres
miro os olhos nos teus
disponho a mão que convida-te

só uma dança, digo acanhada

preciso do toque dos seus dedos
de um pedido atendido
desse encontro de pele

atormenta-me de alegria banal
dá-me calafrios bobos
perpetua-te nos meus braços
no infinito de uma canção