25 janeiro 2009

santa tereza

a questão agora é muito maior que a tarefa. as expectativas sobre o que pode vir consomem cada ínfimo suspiro, desesperado por trégua.
os olhos custam revelar o movimento deste terminal. pesados, queriam só mais um cadinho de tempo pra sonhar.
o desânimo vem junto da tralha. o luxo do automóvel - nada luxuoso - fora como sublime para pés preguiçosos.
foi-me comovente o senhor que se aboletou cá ao lado. cara de ranzinza e jeitão de pessoa que já amanhecera tinha tempo. indagou-me sobre meu interesse em ficar com o jornal do dia que acabava de ler. afirmou estar todo ali, completinho.  encabuladamente, neguei. minha resposta teria sido diferente, fosse esta cidade outra.
o plano veio-me imediatamente à mente quando o sujeito deu-me as costas: esperaria que virasse a quine e, então, recolheria aquelas folhas de papel sujo de opiniões. algumas daquelas palavras, mesmo que de forma ilusória, eram gostosas de se ler, não podia negar.
foi então que se deu um daqueles engravatados do subúrbio. tomou o assento do lado indiscriminadamente e tirou a graça do plano.
fiquei ali até que fosse e trouxe aquele monte contra meu corpo, como que pra protegê-lo.

era então a hora propícia para dar uma leve caminhada até a plataforma e desfrutar um pouco de tabaco. faltava-me apenas uma garrafinha de refrigerante, um cobertor gostoso e um banheiro limpo. não é demais, é?

o horário da saída era, praticamente, igual ao dia anterior. as roupas não: na terra de tereza os trajes são mais casuais. 

tempo cinza por aqui e a esperança, meio angustiada, deseja, quase suplicando, que as águas não queiram cair, o que tornaria caótica a tentativa de independência de ajudantes. 
nunca fui de depender pra conseguir. ridiculamente, incomoda incomodar.
parto, outra vez. e, agora sim, a aventura terá seu devido início.

(...)

tédio e sono. oo local é mínimo, assim como as chances de terminar tudo depressa. desprovenho de paciência pra ficar de pé, aguardando os engomadinhos da serra resolverem trabalhar.

problema foi ela. crente que telefonaria, riria um pouco e nem precisaria ocnvencê-la de encontrar-me. afinal, eu estava lá, pertinho dela, com o dia todo pra nós duas. 
não quis contar o porquê, não perguntou muito de mim, não se interessou. não possuía mais aquele tom doce nos seus vocábulos. preferi não entender que mexia com ela. fazia tanto tempo... aquilo me atordoou. fiquei surpresa, chocada, amedrontada.

nessa, restou-me um espaço no cumprido banco. algumas lojinhas chinfrins na frente, uma mochila ainda semi cheia, o ir-r-vir dos transeuntes e a chuva.
se a frequência dos pingos fosse menor, arriscaría-me por aí. vai ver, qualquer minuto desses, ela cesse.
bem defronte ao meu banco há uma drogaria, daquelas antiguinhas. as prateleiras de madeira deixam, ali mesmo, dispostas toas as drogas disponíveis. uma escada de madeira clara, massissa, fica apoiada. o balcão segue o mesmo padrão, só que envolvido com vidro. não há atendentes dele, o que provoca profunda curiosidade em mim.
diria que é uma pessoa de idade avançada, daquelas que abrem uma lojinha na juventudo e não se desfazem mais, aquelas epssoas sem a ambição latente pela riqueza - contentam-se apenas com o suficiente para manter uma vida pacata e tranquila. 
ou, quem sabe, seja o filho ou neto, não sei. 


a espera tinha virado torturante e resolvi perambular pelas ruas. eu, meu guarda-chuva e o relógio ansioso. não podia ir longe, ou não saberia voltar. consegui achar uma praça super gracinha, onde fica a igreja principal. construção antiga, amarelada, com aspectos que lembram castelos. rodeei-a e descobri o que seria um pequeno amontoado de lojas. 

por dentro, menor ainda. o conceito de consumo parece ainda não ter atingido claramente essas bandas. vendas locais por todos os lados e sem grandes marcas estampadas.
em plena praça de alimentação, no horário de almoço, há duas outras mesas ocupadas.
numa, uma garota pouco mais nova que eu, sozinha, estuda alguma coisa que não consigo ver. na outra, duas mulheres e um homem gargalham fofocas urante a refeição.
agora, na mesa ao lado, sentou-se um cara dos labelos longos, guar-chuva na mesa e, sobre a mesma, uma bíblia que, concentradamente, lê.

da varanda à frente, é possível enxergar um hotel. estilo antiguinho: baixo, cumprido, janelas grandes e de madeira. pilastras com uma porção de detalhes nas extremidades. telhadinho todo de tijolos, as paredes todas pintadas de branco e as portas e janelas num tom fechado de vermelho.
alguns bancos brancos de praça enfeitam o jardim, de mata baixinha, quase que rasteira. aposto que é um dos mais tradicionais daqui.

rumando para a rodoviária, já me achava quase uma nativa, me entendendo pelos cruzamentos e tudo. passei por uma construção de 1928, com detalhes de ferro preto próximos do toldo e ladrinhos pequeninos das cores verde e rosa. saudosamente, cantei alguns de meus sambas preferidos da minha escola e, ali entendi que, independentemente de onde eu esteja, tudo sempre vai me remeter a isso aqui, a esse pedaço de chão, a terra de são sebastião. 

05 janeiro 2009

nem

se liga em mim não.
bata a porta devagar, mas lembre-se que ela não gosta de escancarar seus temores.

tudo parecia tão familiar: o lugar, os frequentadores, os ruídos, os móveis dispostos-  sempre iguais. 
o pêndalo inquitou-se e começaram as surgir situações novas, que foram me enchendo de medo, muito medo. pensava conhecer suas façanhas, seus trejeitos, seus carinhos, suas manhas.
impressionei-me com a capacidade do tempo em transformar-te numa completa estranha. não te vi no seu corpo.

não resisti. o desejo me consumia demasiadamente e nada mais importava. o que você fez?