30 novembro 2010

Reencontro




Anos atrás, passeando por sem rumo em uma cidadezinha no interior da Califórnia, nos Estados Unidos, passei pela Amargosa Opera House. Aquele nome me intrigou e tive que ir averiguar. Para azar meu, a casa estava fechada naquele horário, e meu vôo partia em poucas horas.

Parei e fiquei bem atentamente olhando àquela construção, que hoje soube ter sido reformada, anexando um hotel e não sei mais o que. Uma senhora, que passava na rua com aqueles carrinhos para fazer compras me viu, em pé, com uma cara de bobo, e me abordou. Tá olhando o que, meu filho, ela me disse, ou pelo menos foi o que eu consegui desvendar no meio do seu sotaque de interior. Tentei explicar minha curiosidade pelo lugar, principalmente pelo nome, e foi quando eu ainda tentei ensinar à senhora um pouco de português, para que entendesse o meu espanto.

Rindo, ela me contou que a dona, latina, casada com um francês de formação exemplar, abrira a casa para grandes óperas, musicais, mas a falta de empolgação da dona fez parecer que o lugar era meio como uma baderna, falou-me um monte de outras coisas, que quase não entendi. Nos despedimos e quis registrar a Amargosa, mesmo sem saber se alguma parte da histórias eram verdadeiras, ou se eu tinha entendido alguma coisa muito errada, não me importei. Gostei daquele lugar, quero voltar lá um dia, foi o que pensei.

Anos depois, passeando por uma ruazinha de um bairro até bacana de São Paulo, vendo se achava algum apartamento para morar porque gostei da região, da vizinhança, dos bares, do metrô perto, gostei dali. Queria morar naquela região, que delimitei em um mapa mental e saí à caça.

De repente, eu vejo aquela parede cinza, sim, com uma textura diferente, mas cinza. Janelas, ao invés de portas e um retângulo, que mais parecia um buraco para colocar ar condicionado, azuis, daquele mesmo azul, um azul que eu nunca esqueceria, um azul tão vivo e bonito com aquele fundão cinza. E um banco, troncho, de madeira amargosa, pensei. Era um sinal, eu tinha que morar ali. Não seria de ópera, mas ali, com certeza seria a minha amargosa casa.






Voltar à página inicial

29 novembro 2010

Garotas de Ipanema por Chico e eu



Sozinho, sentado na praia de Ipanema, fones nos ouvidos, Chico parecia cantar aquela cena, que me agradava tanto, mas que seria incapaz de traduzir. Aqueles homens e mulheres, uns exibindo-se para os outros, misturados no mesmo campo de batalha, mas isolados nos seus grupinhos. Prepotentes, eles querem controlá-las. Não sei você, mas eu rio da ilusão.

"Não é por estar na sua presença, meu prezado rapaz
Mas você vai mal, mas vai mal demais", isso, Chico.
São dez horas, o sol tá quente
Deixa a morena contente, aquela ali,
Deixe a menina desfilar em paz, foi como cantei para mim mesmo.

Eu não queria contar vantagem, mas tenho que dizer, tenho mesmo:
Cê tá de lascar, cê tá de doer, mas não é?
E se vai continuar enrustido com essa cara de marido, ri de deboche,
A moça é capaz de se aborrecer, e aí quem vai chegar como o bonzinho? Quem?

"Por trás de um homem triste há sempre uma mulher feliz", como assim, Chico? Não faz assim comigo não...
E atrás dessa mulher, mil homens sempre... Tão gentis?
Por isso, para o seu bem, cara, ou joga água na cabeça,
Ou mereça a moça que você ainda não tem... Agora a compaixão me fez ter pena, do pobre coitado, sentado ao meu lado. Mas continuei cantando:

"Não sei se é pra ficar exultante, meu querido rapaz", esse querido me soa tão cínico, e bem similar com o que sinto.
"Mas aqui ninguém o aguenta mais", você ainda não entendeu? Quer que eu desenhe?
São três horas, o sol tá bem quente
Deixa a mulata contente, a loirinha, a ruiva, a gringa...
Deixe a menina rebolar em paz, deixa.
Vamos apreciar a vista juntos...






Voltar à página inicial

Grato: CV


As UPP's foram sendo instaladas nas favelas e o número de assaltos foi aumentando, continuavam pacificando a cidade e ao mesmo tempo irritando os traficantes. Eles se revoltaram e foram para as ruas... Eram atentados para todos os lados, bombas, assaltos, carros e ônibus queimados, eles conseguiram gerar terror. E conforme isso acontecia, aumentava também o policiamento na rua, chamaram reforço e tiveram ajuda da marinha e exército.

Mesmo exibindo suas potentes e numerosas armas, com um atrevimento, que depois foi acoado pelo medo, os malvados traficantes ainda pareciam se importar com os moradores do complexo que, afinal, os abrigava. Cuidadosamente invadindo uma das principais ruas de acesso ao centro ao campo de batalha que se formou, me deparei com um recado, manchado com tinta no muro que guiava o caminho: "Atenção moradores: em dias de guerra, evitem sair de suas casas... Grato: CV".

Corre, minha filha, foi a única coisa coisa que me passou pela cabeça, que não entendia mais por que eu tinha aceitado me meter ali. Afinal, será que eles, os bandidos terroristas, não são uma consequência de tudo isso?





Voltar à página inicial

Trancado aqui dentro



Dentro de meu apartamento, paisagem deslumbrante lá fora, mas só enxergava o cinza. Aqueles fios levavam tantos turistas para uma nova vista, um cartão postal que, para mim, era que nem aqueles quadros que a gente tem em casa, pendurados na parede... Depois de um tempo, eles se incorporam à tinta da parede e você nem repara mais.

Tanta disposição para ver as cores do mundo e eu incapaz de abrir aquela maldita porta, que me separava de tudo isso, tudo que um dia eu achei tão bonito, tão viva como as águas não cansavam de bater naquele areal e voltar lá para o fundo, já com pressa de voltar.





Voltar à página inicial

Me prendi, as grades me travaram e a mala, que tirei do armário há semanas, ainda está vazia de coragem e não mudava nada, ela cada dia me irritava mais e me encurralava naquela casa que já não era mais nossa, nem minha. Era dela. Aquele mundo era o dela. E eu, covarde, fico olhando nessa lente mentirosa, que acha que tudo é bonito. Quer saber, cansei, vou-me embora, querida.

Mas na volta lhe trago o cigarro.

28 novembro 2010

Memória o quê?

Dentro de cada um de nossas cabecinhas há mais coisa do que o bicho papão poderia ser capaz de devorar, e uma delas é a nossa memória. Acumulada por todos os nossos anos de existência, ela torna-se parte de nós, e uma parte que pode ser fragmentada em três tipos: as memórias sensoriais, sentimentais e a memória fotográfica. Esta última é o nosso objeto de trabalho, e consiste na imagem que fazemos em nossa cabeça acerca de alguém ou algo, sem que, necessariamente tenhamos que estar diante da figura em questão.


Cada um desses tipos de memória se localiza em uma parte diferente de nosso cérebro, e algumas estão em lugares que nem nós mesmos sabemos, que são as chamadas memórias implícitas, aquelas que não temos acesso, estão no nosso inconsciente. Como não somos psicólogas, a gente deixa essa questão para Freud e seus seguidores. Vamos então nos ater às memórias explícitas e, especificamente àquelas que podemos vislumbrar em nossas mentes, que nos transportam para uma outra dimensão e tornam possível a agilidade da nossa vida cotidiana.

A foto e você

O interessante na nossa memória é que, apesar de podermos criar divisões ou categorias para tentar especificá-las, aquilo que ficou registrado dentro de nós se espalha, assim como os sentidos se buscam, fazendo com que as lembranças ficam encarnadas em nós, e o corpo inteiro parece se lembrar daquilo, seja lá o que for.

Assim como nos filmes, novelas, livros e qualquer tipo de narrativa, as fotos nos contam uma história, nos situam em um contexto. Sem dúvidas, a resposta dada a estímulos iguais é intrínseca à personalidade individual de cada ser.

Desejo, vontade, curiosidade, tesão, carinho, conforto, afeto, compaixão, saudosismo, pena, excitação, estranhamento, ódio, repulsa, nojo, horror, ... , indiferença. Seja qual for a sensação que uma imagem te passe, se você realmente olhar para ela, você não será ao mesmo – terá desbravado um mundo novo, talvez familiar, ou aventureiro e obscuro.

E, será que se pode criar memórias visuais? Ora, o papel desenvolvido por profissionais de marketing, publicidade, e até o seu vizinho, acabam contribuindo com mais um grão da massa cinzenta. As narrativas têm esse poder de tentar te trazer para um mundo paralelo, que você acredita que pode existir, e os profissionais de comunicação tentam te aproximar desse mundo mágico que sua companhia para qual trabalham traz como filosofia, na grande maioria das vezes através de uma imagem, fazendo criar um burburinho brilhante novo, que é fixado pela propaganda.

Mas, e quando aquela memória guardada se confronta com um novo panorama que, em todos
os sentidos da palavra, choca demais, estilhaçando a vidraça que protegia aquela lembrança que, por ser tão nossa, imaginávamos ser intocável? Por mais que às vezes pareça melhor só ignorar, o desenrolo da história está lá, inerente à nossa vontade. Algumas surpresas são boas, outras viram decepções, mas sempre são impactantes.

E você? Que imagens estão arquivadas no seu hard drive?





Voltar à página inicial

18 novembro 2010

Memória Sentimental

Todos nós temos uma espécie de arquivo mental que costumo chamar de "memória sentimental". Neste arquivo são armazenados sentimentos, idéias, fatos, sonhos realizados ou não (a maioria não) e até mesmo sensações. São cuidadosamente catalogados e de acordo com a circunstâncias requisitados como num passe de mágica, ao centro de nossos pensamentos.Algumas lembranças foram arquivadas de propósito para acalentar quem sabe, sentimentos culposos ou pensamentos incautos. Outras, esquecidas, foram arquivadas pelo tempo que é o maior caralogador de emoções.
Já não lhe aconteceu sentir um aroma e esse lhe lembrar alguém ou um fato ocorrido? Ouvir uma música e navegar no pensamento relembrando um acontecimento antigo? Um perfume e lembrar o cheiro da pessoa amada? Ou um gosto por exemplo, lembrar o sabor do beijo? Ah!!!! Que beijo!...O Halls? A balinha de hortelã com o gosto daqueles lábios que o tempo não conseguiu apagar? Naquele tempo... "velhos tempos", tudo era bem diferente de hoje, as pessoas podiam sair à rua de mãos dadas passeando livremente, chegar sem medo de madrugada e passar na padaria para comprar pão quentinho depois de uma festa; chutar pedrinhas na rua; correr um atrás do outro numa brincadeira ingênua, sem receio de ser confundido com ladrão ou esconder-se numa viela para roubar um beijo. Tudo isso sem o terror precedente do medo de assaltos; pois naquela época o que mais se roubava eram beijos e flores no jardim da vizinha, para dar a namorada. Hoje as flores são entregues pela floricultura acompanhadas por um cartão, é bem mais chique e cômodo, porém não possui a beleza singular de antes.
Também neste arquivo estão todas as lembranças dos tempos passados - da comidinha da mamãe, da professora primária, dos colegas de infância, da tia solteirona que morria de medo das pererecas e lagartas, que insistíamos em jogar nelas, das brincadeiras nos quintais, do pique esconde, do xixi atrás da casa... essas e tantas outras lembranças as quais você leitor está se recordando neste momento.
Tudo isso ficou para trás... e tudo isso foi tão importante! Foram como tijolinhos, colocados um a um fomando a base do que você é hoje. Bons tempos aqueles!E agora, aos quarenta, ou mais, é hora de percebemos as coisas com maior intensidade, não arquivar as coisas tão apressadamente. É hora de sugar o néctar dos melhores momentos, não deixar passa nada, sem sentir o sabor: huuuuummmmm!!! Do beijo... das carícias... dos sussurros... da língua quente na orelha... no pescoço!Aproveite todos os bons momentos que a vida lhe proporcionar. Sinto o sabor e como dizem os jovens: beeeije na boca!!! Eternize os momentos deliciosos... na alma!Não deixe que nada passa em sua vida de qualquer jeito. Sinta, respire fundo... goooze! Este momento jamais voltorá. Como bem disse o Sábio Heráclito: O homem não pisa duas vezes no mesmo rio, ao pisar novamente não é mais o mesmo homem... nem o mesmo rio.
Guarde seus deliciosos momentos bem guardadinhos, depois de vivê-los intensamente, no seu arquivo confidencial. Você poderá requisitá-lo quando quiser. Com certeza o brilho em seus olhos será de imensa ternura.

(Você já perdeu tempo demais! Luna Laboré)





Voltar à página inicial