02 dezembro 2010

O silêncio



Por Ana Catarina Teles

Um engraxate lê o jornal que relata a decepção perante o time do Flamengo e, ao mesmo tempo, a decepção do engraxate, já que não há nenhum cliente. Imagem capturada na Rua do Carmo, centro do Rio de Janeiro. Quem olha a fotografia, não imagina a quantidade de pessoas que passam pela frente do engraxate e o quão tumultuado e turbulento é o centro, como o de qualquer metrópole. Mas ele estava ali, sem clientes, sem glórias e sem saber porque tinha saído de casa naquela manhã cinzenta.

01 dezembro 2010

Pescador de ilusões



Por Ana Catarina Teles

Difícil se deparar com uma cena dessas hoje em dia, principalmente quando se tratam de crianças pescando no Rio de Janeiro. Acho que a foto passa calmaria, uma sensação de distância das metrópoles, bucolismo, ou até mesmo de uma atividade cada vez mais rara. A imagem foi capturada em Paquetá, em dezembro de 2009, enquanto um grupo de adolescentes pescava, dividindo as tarefas: um grupo limpava os peixes já pescados, um menino lançava a tarrafa e os demais brincava no mar.




Voltar à página inicial

30 novembro 2010

Reencontro




Anos atrás, passeando por sem rumo em uma cidadezinha no interior da Califórnia, nos Estados Unidos, passei pela Amargosa Opera House. Aquele nome me intrigou e tive que ir averiguar. Para azar meu, a casa estava fechada naquele horário, e meu vôo partia em poucas horas.

Parei e fiquei bem atentamente olhando àquela construção, que hoje soube ter sido reformada, anexando um hotel e não sei mais o que. Uma senhora, que passava na rua com aqueles carrinhos para fazer compras me viu, em pé, com uma cara de bobo, e me abordou. Tá olhando o que, meu filho, ela me disse, ou pelo menos foi o que eu consegui desvendar no meio do seu sotaque de interior. Tentei explicar minha curiosidade pelo lugar, principalmente pelo nome, e foi quando eu ainda tentei ensinar à senhora um pouco de português, para que entendesse o meu espanto.

Rindo, ela me contou que a dona, latina, casada com um francês de formação exemplar, abrira a casa para grandes óperas, musicais, mas a falta de empolgação da dona fez parecer que o lugar era meio como uma baderna, falou-me um monte de outras coisas, que quase não entendi. Nos despedimos e quis registrar a Amargosa, mesmo sem saber se alguma parte da histórias eram verdadeiras, ou se eu tinha entendido alguma coisa muito errada, não me importei. Gostei daquele lugar, quero voltar lá um dia, foi o que pensei.

Anos depois, passeando por uma ruazinha de um bairro até bacana de São Paulo, vendo se achava algum apartamento para morar porque gostei da região, da vizinhança, dos bares, do metrô perto, gostei dali. Queria morar naquela região, que delimitei em um mapa mental e saí à caça.

De repente, eu vejo aquela parede cinza, sim, com uma textura diferente, mas cinza. Janelas, ao invés de portas e um retângulo, que mais parecia um buraco para colocar ar condicionado, azuis, daquele mesmo azul, um azul que eu nunca esqueceria, um azul tão vivo e bonito com aquele fundão cinza. E um banco, troncho, de madeira amargosa, pensei. Era um sinal, eu tinha que morar ali. Não seria de ópera, mas ali, com certeza seria a minha amargosa casa.






Voltar à página inicial

29 novembro 2010

Garotas de Ipanema por Chico e eu



Sozinho, sentado na praia de Ipanema, fones nos ouvidos, Chico parecia cantar aquela cena, que me agradava tanto, mas que seria incapaz de traduzir. Aqueles homens e mulheres, uns exibindo-se para os outros, misturados no mesmo campo de batalha, mas isolados nos seus grupinhos. Prepotentes, eles querem controlá-las. Não sei você, mas eu rio da ilusão.

"Não é por estar na sua presença, meu prezado rapaz
Mas você vai mal, mas vai mal demais", isso, Chico.
São dez horas, o sol tá quente
Deixa a morena contente, aquela ali,
Deixe a menina desfilar em paz, foi como cantei para mim mesmo.

Eu não queria contar vantagem, mas tenho que dizer, tenho mesmo:
Cê tá de lascar, cê tá de doer, mas não é?
E se vai continuar enrustido com essa cara de marido, ri de deboche,
A moça é capaz de se aborrecer, e aí quem vai chegar como o bonzinho? Quem?

"Por trás de um homem triste há sempre uma mulher feliz", como assim, Chico? Não faz assim comigo não...
E atrás dessa mulher, mil homens sempre... Tão gentis?
Por isso, para o seu bem, cara, ou joga água na cabeça,
Ou mereça a moça que você ainda não tem... Agora a compaixão me fez ter pena, do pobre coitado, sentado ao meu lado. Mas continuei cantando:

"Não sei se é pra ficar exultante, meu querido rapaz", esse querido me soa tão cínico, e bem similar com o que sinto.
"Mas aqui ninguém o aguenta mais", você ainda não entendeu? Quer que eu desenhe?
São três horas, o sol tá bem quente
Deixa a mulata contente, a loirinha, a ruiva, a gringa...
Deixe a menina rebolar em paz, deixa.
Vamos apreciar a vista juntos...






Voltar à página inicial

Grato: CV


As UPP's foram sendo instaladas nas favelas e o número de assaltos foi aumentando, continuavam pacificando a cidade e ao mesmo tempo irritando os traficantes. Eles se revoltaram e foram para as ruas... Eram atentados para todos os lados, bombas, assaltos, carros e ônibus queimados, eles conseguiram gerar terror. E conforme isso acontecia, aumentava também o policiamento na rua, chamaram reforço e tiveram ajuda da marinha e exército.

Mesmo exibindo suas potentes e numerosas armas, com um atrevimento, que depois foi acoado pelo medo, os malvados traficantes ainda pareciam se importar com os moradores do complexo que, afinal, os abrigava. Cuidadosamente invadindo uma das principais ruas de acesso ao centro ao campo de batalha que se formou, me deparei com um recado, manchado com tinta no muro que guiava o caminho: "Atenção moradores: em dias de guerra, evitem sair de suas casas... Grato: CV".

Corre, minha filha, foi a única coisa coisa que me passou pela cabeça, que não entendia mais por que eu tinha aceitado me meter ali. Afinal, será que eles, os bandidos terroristas, não são uma consequência de tudo isso?





Voltar à página inicial

Trancado aqui dentro



Dentro de meu apartamento, paisagem deslumbrante lá fora, mas só enxergava o cinza. Aqueles fios levavam tantos turistas para uma nova vista, um cartão postal que, para mim, era que nem aqueles quadros que a gente tem em casa, pendurados na parede... Depois de um tempo, eles se incorporam à tinta da parede e você nem repara mais.

Tanta disposição para ver as cores do mundo e eu incapaz de abrir aquela maldita porta, que me separava de tudo isso, tudo que um dia eu achei tão bonito, tão viva como as águas não cansavam de bater naquele areal e voltar lá para o fundo, já com pressa de voltar.





Voltar à página inicial

Me prendi, as grades me travaram e a mala, que tirei do armário há semanas, ainda está vazia de coragem e não mudava nada, ela cada dia me irritava mais e me encurralava naquela casa que já não era mais nossa, nem minha. Era dela. Aquele mundo era o dela. E eu, covarde, fico olhando nessa lente mentirosa, que acha que tudo é bonito. Quer saber, cansei, vou-me embora, querida.

Mas na volta lhe trago o cigarro.

28 novembro 2010

Memória o quê?

Dentro de cada um de nossas cabecinhas há mais coisa do que o bicho papão poderia ser capaz de devorar, e uma delas é a nossa memória. Acumulada por todos os nossos anos de existência, ela torna-se parte de nós, e uma parte que pode ser fragmentada em três tipos: as memórias sensoriais, sentimentais e a memória fotográfica. Esta última é o nosso objeto de trabalho, e consiste na imagem que fazemos em nossa cabeça acerca de alguém ou algo, sem que, necessariamente tenhamos que estar diante da figura em questão.


Cada um desses tipos de memória se localiza em uma parte diferente de nosso cérebro, e algumas estão em lugares que nem nós mesmos sabemos, que são as chamadas memórias implícitas, aquelas que não temos acesso, estão no nosso inconsciente. Como não somos psicólogas, a gente deixa essa questão para Freud e seus seguidores. Vamos então nos ater às memórias explícitas e, especificamente àquelas que podemos vislumbrar em nossas mentes, que nos transportam para uma outra dimensão e tornam possível a agilidade da nossa vida cotidiana.