03 dezembro 2009

artigo definido

gente nasce,
a gente anuncia a chegada.
gente chora,
a gente transforma em emoção palpável.
gente acorda,
a gente começa outro capítulo.
gente levanta, toma café, se arruma e sai,
a gente não regula os instintos.

gente não começa com a gente.

a gente admira a paisagem, sente o vento bater no rosto e repara nos trejeitos,
gente comenta da inflação.
a gente não explica e a risada conjunta se forma,
gente tenta fazer graça e ganha olhares recriminosos.
a gente não tem porquês,
gente tem síndorme de flagrante - sai arrumando álibis.
a gente se permite à comunicação telepática,
gente se reprime e fica na vontade.

a gente não sabe ser gente.



gente não deixa de ser a gente por carência de artigo definido feminino.
a gente não quer se entender por gente.

01 dezembro 2009

Filhinha do Papai

Quando a década de sessenta se vê por terminar, no enquadramento das celas de Vacaville, jovens estudantes da classe média partidários de ideais de esquerda propagavam o marxismo para os presidiários negros da Black Cultural Association. Mais tarde, esse mesmo grupo estudantil viria a formar o Exército Simbionês de Libertação – cautelosos até na escolha do nome, travavam uma luta contra o racismo, o sistema penitenciário e a monogamia.

Adotando a tática de ‘propaganda urbana’ para chegar à mídia, a fins de conseguir a adesão popular às suas propostas, praticou diversas ações selecionadas, coisas como assaltos, homicídios e um grande seqüestro, que acabou sendo a maior ação do grupo.

Filha do magnata estadunidense William Randolph Hearst, a jovem universitária Patricia Hearst, que depois abdicou seu nome e herança, foi seqüestrada e levada para um cativeiro, ou melhor, um armário aonde hoje alega ter sido violentada e sexualmente abusada. Em 1974 ela usava outros termos para se referir ao General Field Marshal Cinque - seu algoz, um dos líderes do ESL e, depois de apenas dois meses em aprisionada, seu amante. Ficou conhecida como a mulher de duas caras, irônica alusão às cirurgias plásticas as quais tinha se submetido.

Em uma referência à companheira de Che, Tânia, como quis ser chamada, juntou-se ao grupo inclusive em ações como o assalto em que foi flagrada pelas câmeras do Hiberna Bank – armada e gritando com os clientes da agência.

Mundialmente procurada pelas maiores organizações de segurança, foi alvo das mais diversas acusações que seriam facilmente passíveis de prisão perpétua. Quando finalmente foi presa, antes mesmo de formalmente interrogada, conversou com dois agentes em particular e foi convencida a mudar sua versão da história.

Em 1976, a pessoa mais procurada dos Estados Unidos acabou sendo sentenciada a trinta e cinco anos, mas, curiosamente, essa pena foi reduzida a sete longos anos na prisão. Até o presidente Jimmy Carter acabou encurtando sua estadia naquela cela e, num total de vinte e um meses, a filha do magnata, Patricia Hearst, voltou ao luxuoso e confortável mundo de seu pai, aonde se casou com seu antigo segurança e hoje tem dois filhos.

08 novembro 2009

o negócio é amar

Tem gente que ama, que vive brigando
E depois que briga acaba voltando
Tem gente que canta porque está amando
Quem não tem amor leva a vida esperando
Uns amam pra frente, e nunca se esquecem
Mas são tão pouquinhos que nem aparecem
Tem uns que são fracos, que dão pra beber
Outros fazem samba e adoram sofrer
Tem apaixonado que faz serenata
Tem amor de raça, amor vira-lata
Amor com champagne, amor com cachaça

Amor nos iates, nos bancos de praça
Tem homem que briga pela bem-amada
Tem mulher maluca que atura porrada

Tem quem ama tanto que até enlouquece
Tem quem dê a vida por quem não merece
Amores à vista, amores à prazo

Amor ciumento que só cria caso
Tem gente que jura que não volta mais
Mas jura sabendo que não é capaz
Tem gente que escreve até poesia
E rima saudade com hipocrisia

Tem assunto à bessa pra gente falar
Mas não interessa o negócio é amar


.


Carlos Lyra


_________

marnué?

05 novembro 2009

(bom) dia

bom dia o caralho!
acordar com aquele pi-pi do despertado furreca, mas que em luzinha pra acender e ver a hora de madrugada não é nada um bom jeito de começar o dia. não me conformo com o toque de acordar, acho injusto.

os minutos parece que se atropelam naquele tempo entre despertar e sair de casa e sempre há a sensação de não ter feito tudo ou arranjado tudo na mala, ou dá a certeza agoniante do atraso.

carro quebra, engarrafamento irrita, calor anestesia.
os imprevistos e desagrados vão se sobrepondo e, quando você apenas não está afim, se passa por grosso, estúpido, imprestável...
trabalho para arrumar a cara numa careta de repressão não é problema, mas abrir a boca e realmente se interessar não. isto já é exigência grande.

os raros sorrisos não forçados ficam, então, encarregados de cobrir toda a validade da jornada e a vontade fica só de que aquele termine para que comece outro.






será?
válido mais seria chegar ao conforto de novo e abolir qualquer tipo de preoblematização.

no cafofo é assim.

27 outubro 2009

la playa

briga de sol e chuva e não parou
os trajes iam se adaptando, a música continuou e os pés não quiseram se aquietar
as pálpebras adquiriram pressão nervosa de ansiedade insegura de coisa nova
calafrios e nervosinho na barriga, um sorriso besta que não soube se fazer esconder
um cruzamento de olhares vários, procurando um só
nada de fumo ou qualquer coisa desse gênero, mas que os lábios se ressecaram, ah... isso sim
não é nenhum fenômeno extraordinário, mas mais que ordinário
ah mais, bem, bem mais...

a graça que eu vi naqueles olhos brilhantes de alegria
o sorriso gostoso
o tom inesperado de voz
e as surpresas vinham atropelando os achismos
e o fundo parecia que esfumaçou, como que de propósito
e, então, eu tropecei

17 outubro 2009

. Fim de Tarde

Alô?
Olá. Como tá?
Querendo alugar um filme.
Parece interessante...
Então, na videoteca em vinte?
Não esquece das minhas coisas, que ficaram esquecidas contigo.

A casualidade incorporada denotava tons pastéis naquele fim de tarde. A mochila indicava impulsividade, um sinal de ousadia implícita.

Bom dia, Seu João.
Que temos hoje?
Pressa. Tome aqui, do jornal.
Um sorriso de despedida, que continuou naqueles ábios pelas ruas de travessa até lá.

E aí? Acho que estou mais afim de coisa leve.
Mesmo? Tinha pensado naquele que saiu, a crítica elogiou bastante até.
Você que sabe...
E uma pausa de fala perpetuou por poucos demorados segundos.

De quê?
Dessas coisas muito alternativas e pensantes. Quero besteirol, pastelão, desenho animado.
Escolhe você então... Vou comprando comida na lojinha aqui do lado.
Tá bom.
O que foi?
Foi o quê?
Esse seutom.
Nada, só que você tinha dito que íamos jantar naquele lugarzinho novo.
Mas iremos, se você quiser ainda.
Nossa, agora não precisa mais.
Iremos. Foi só uma ideia besta que me ocorreu.
Você paga a conta.
Estava mesmo lhe devendo daquele outro dia. Viu? Ótima desculpa.
É, talvez.

O caminho longo e silencioso trouxe aqueles pensamentos exagerados e compulsivos e engasgados amígdalas abaixo. E não mais subiu.

16 outubro 2009

BOOM BOOM DAQUI, BUMBUM DE LÁ

Vem o ano de mil novecentos e quarenta e seis e junto o comunicado oficial veio, notificando a todo um contingente que, de suas casas, deveriam se mudar. A aboletação geral não deixou que, a princípio, percebessem o desconforto que estaria por vir. Do atol de Bikini para o de Rongerik, de casa para terras malditas.

Não bastava todo o estrago de duas guerras de proporções tais quais foram. O desprezo estadunidense quanto a quaisquer danos que uma experiência nuclear podia eclodir, só porque querer entender a magnitude de sua nova arminha, ainda foi apoiado pela Organização das Nações Unidas. Este último adjetivo da sigla acabou não sendo tão imparcial assim ao apoiar uma ação sem precedentes parecidos. Obviamente haveriam registros fotográficos oficiais para uma operação de tal magnitude, mas as filmagens de tais testes acabaram por se perder ou estragar numa coincidência incrível.

Em outras areias, distantes daquelas, uma questão causava comoção de proporções similares: a mais nova peça do vestiário feminino, o biquíni. Dentro de uma sociedade ainda coberta de pudores e vergonhas, as curvas começam a se descobrir e o rebuliço em torno daqueles quatro triângulos de nada – considerado, por muitos, dignos de mulheres desrespeitosas – foi tal, que o compararam a termos nucleares. O precursor átomo que o diga. Este foi nomeado assim por conta de sua pequenez

Aos estilistas franceses e à stripper - que se predispôs a se expor para o mundo usando a novíssima invenção que vinha estampada como notícia de jornal – devem, os brasileiros, agradecer enormemente. Não só, como se já não fosse o bastante, pela pele à mostra ilustrando as praias do país, mas por todo o mercado que se deslanchou. Fundiram-se a criatividade de um povo tropical e uma das maiores descobertas do século. Com isso os modelos foram ganhando novos formatos e estilos, panos e acessórios e o conjuntinho praia acaba por se incrementar, acalantando os olhos mareados e desprendendo os lábios uns dos outros naquela cena fotográfica perfeitamente harmoniosa.

18 setembro 2009

pó dia

só por hoje podiam os zombidos se unificarem num distante ínfimo
só por hoje podia-se calçar a sapatilha, o tutu e dançar naquele balanço intensamente dramático
só por hoje podia clarear, ao fim de uma ducha rápida, um resquício de sol pra se admirar no fim da tarde
só por hoje podia o molejo se ordinarizar e os requebrados sorrisos podiam parecer próprios
só por hoje podiam não recriminar a preguiça
só por hoje podia abolir-se qualquer princípio de culpa
só por hoje podia-se permitir

só por hoje podia
só podia por hoje
podia por hoje só
por hoje só podia
podia só por hoje

só por hoje, podia?

14 setembro 2009

vaso seco

você sabe o que acontece a cada pausa que me impõe?
as cores se acinzentam, as lindas flores encolhem, os sorrisos se fecham e o edredom é entendido sobre o corpo jogado naquele recorte de cama.
lançou um feitiço que me tomou e descuidou.
dilacerou e saiu com a porta aberta.
me plantou e, quando avistou outra, nem titubeou.
murchei, sequei, esperei.
você não veio.
ou talvez até sim, mas agora...
agora já foi.

03 setembro 2009

oh-hoh

como se a visão latejasse
o ritmo ouvido tivesse quebras inesperadas
os sentidos palpáveis se aguçassem,
intensificando cada corte de cena
agoniante
magnética
imprópria
encantadora
instigante


- ei, esse diálogo está errado!
- sim senhora. mas a que se deve tal imperatividade no locus?
- pergunto eu, então, a que se deve tal ponderamento?
- deve de nada, não. tão pouco deve de ironizar.
- mesmo? então, por conseguinte, a que se deve esse atalho indiscreto?
- sobras de cartas não encaminhadas, resquícios flutuantes, quinas de hesitações.
- ah sim.
- viu?
- o quê?
- não me faça ter que dizer.
- seria interessante...
- boa escolha de adjetivo.
- vai demorar?
- eis aí seu por quê.
- perguntei o quê e não o por.
- esse aí? saiu ali, todo camuflado.
- agora vai ser sempre assim, é?
- tá parecendo...
- mesmo, mesmo?
- não fui eu quem coloriu o mapa.

18 agosto 2009

lost

fugi. saí correndo deste ambiente tão familiar. me sufoquei com a própria essência.
não posso me dizer que me perdi pelo caminho já que nunca houve rota programada.
esperava um lapso de ideia repentina que me agradaria; esperava algum esbarrão ocasional que trouxesse alegria; esperava novidade.

as ruas continuavam as mesmas, as pessoas não me impressionavam e o tempo se delongava com meus passos perdidos.
pulei pra dentro de um ônibus, ansiando que ele me trouxesse novos sabores.
ao desembarcar, avistava apenas mais um bando de situações já conhecidas.
o tédio só sabia crescer e o sorriso se tornava mais remoto a cada instante.
a angústia passou para um estado praticamente insuportável de sentir e, a esta hora, me encontrava presa naquela situação.

o girar do pulso e o abaixar da cabeça procuravam minutos mais apressados do que o relógio estava disposto a exibir.

senti-me saudosa daquela monotonia do cômodo de dez paredes. ao menos ele não me exigia o fingimento, o sorriso forçado.

corri. corri e não foi pouco.
faça apenas um favor: só não me indague sobre o destino. irônicamente, acho que você o conhece bem.

18 junho 2009

mas não é?

você me confunde e eu gosto(...)


no fundo acho que a culpa é nossa.

someone i know

There was he, sitting in my house's living room chair in the morning. It was a very normal scene. He had a kind of a ritual: woke up, had breakfast and finally, sat in his chair while nobody had wakened up.
He was always the first and if you woke up and he wasn't there you didn't need to worry, he was certainly coming.
If you wonder when I met him I won't be able to answer you, I think I can't remember my life without him. He was everything I could dream about.
He was the only one who understood me and loved me just the way I was. He did everything that I asked him to do without complaining, not once.

But I was only a child and couldn't realize he was my best friend and now what's left is regret.
I wish I have just a few more moments with him, so I'd be able to say how much I miss him.

He's gone be here, with me, forever.

07 junho 2009

corte e costura

qualquer retalho é um pedaço de pano
umas linhas enroladas num outro tecido
um disfarce de você

um buraquinho, que problema tem?

20 maio 2009

pesca

que vazio é esse que preenche tudo?
que coisas ocas são essas que tanto estrondo fazem?
que nada é esse que completa tanto?
que solidão é essa que aconchega?

esbanjei clichês, abusei das cafonices e sucumbi o brega.

troquei a calça pelo vestido cinza, 
que há muito estava ali guardado.
fucei todas as gavetas e fui colhetando batons, sombras, pincéis.
apriselhei as mechas de uma forma inusitada.
subi na sandália e penduriquei-me com coisas prata.

faltava ainda.
o horário marcado ainda não chegara e já estava bela, a espera.
telefone veio avisar que iria-te atrasar.
eu, de paciência não muito latente, já bufava inquieta.

os botões do controle já estavam afundados de tanta troca de canais.
programação ruim essa, pensei.
acho que procurava-te na tela.
procurava, procurava...

e nada de bozinha anunciando tua chegada.

enfim o interfone gritou e aliviei-me.
uma última passadinha de perfume e lá estava, na portaria.
olhei-te com desprezo, intolerância, revolta.

desmanchei toda raiva quando me dei conta.
enganaste-me e adorei.

as velas desconcertantes anunciavam a grande noite.
o jazz de fundo acalentava suas palavras,
e me entreguei a esse charme incondolente e devastador que pairava por ali.

fisgaram-me.
e agora?

15 maio 2009

PRESENTE DE ANIVERSÁRIO

Acordou logo com um sorriso, daqueles bonitos, de encher a cara de coragem e exibir os dentes sem nem perceber. Direto encaminhou-se  para a cozinha. No caminho, a sala. Em cima da mesa pequena de centro um embrulho e um bilhete em cima. Como esse não era dia ordinário, esquivou-se sem titubear. Embrulho feito  à mão, era de se notar. Caprichado, porém. 

Aquele papel lhe saltou aos olhos e subitamente as letras já quase se encostavam aos cílios. ‘Espero que goste. Com carinho, Eu’. Aqueles vocábulos só enriqueceram sua curiosidade. Meticulosamente, como é de seu feitio, foi descolando cada dobradura daquele quase-origami. O papel azul, com desenhos incompreensíveis escondia um segredo. Precisava desvendá-lo.

Por um momento foi tomado por um surto raivoso, de ansiedade, de uma agonia de aniversariante. Foi conjecturando mentalmente, e expressava nos olhares, nas sutis movimentações das suas bochechas, dos seus lábios, o que tanto podia ser. Depois chegou o medo: de não gostar, de ser incômodo, de ser aquém das expectativas, de ser menos.

Convenceu-se então de que não, só poderia gostar. Não faria sentido.

As cores foram saltando aos olhos e as quinas junto.

De repente, aquele olhar apreensivo se escondeu depois de ser bruscamente expulso por um olhar esbugalhado, brilhante, que acompanhava um abrir de boca impressionante, até.

Pegou-a, abraçou-a junto ao peito com um carinho tão imenso quanto indescritível. Foi quando o turbilhão de nostalgias saltitantes deu aquele rosto um contentamento contente.

Correu de volta ao quarto, fechou a porta e, em sua cômoda, cuidadosamente, depositou-a. Fica bem aqui, pensou.

Por fim, foi a vez do misterioso sorriso envolvente. Esse permaneceria pro resto do dia. O conforto trouxe calma e a calma fez seu papel de ajeitar.

28 abril 2009

Por não estarem distraídos...

Clarisse Lispector

 

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos!

Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

09 abril 2009

vieste e fui

olhaste e não reparei
paraste e notaste - 
vi-te levemente ao longe

lenga lenga longa sem porquê

fui a um desconhecido
pedi-lhe meia dúzia de informações
alertou-me da bifurcação à frente
mal podia reconhecer-te
com olhos embriagados
dessa turbulência urbana

desta vez parei
e fiquei

na curta reta de chegada
todas as perspicácias
todos os esbarrões desfarçadamente propositais
tudo que se aliou e permaneceu instigando

meus bons dias desejam
ansiosamente aqueles que retribui
garantindo-me que assim será

os caminhos nos tomam tempo
e espero-te com a mesa posta
com um medroso sorriso 
que pula-me canto-da-boca afora
e um até logo apertado
sem muito querer

pancada forte anuncia
os grossos e apressados pingos 
que inundariam o trânsito 
de fim de tarde
de fim de semana
de feriado

aquela úmida sensação
de sentir-se só
mais uma anônima
desabrigada de seu abraço

o sol se esfumaça caindo
a ânsia levanta
como se erguesse
a lua que te traz 
acalmando todo o desejo contido
as vontades caladas
as falas interrompidas
os suspiros tremidos

não satisfazem-me notícias de jornal
desabafos de terapia
relatórios de esposa
casos de amiga


pego o melhor dos vinis
levanto a agulha
e encaixo o disco 
como quem põe criança pra dormir

espero os primeiros timbres
miro os olhos nos teus
disponho a mão que convida-te

só uma dança, digo acanhada

preciso do toque dos seus dedos
de um pedido atendido
desse encontro de pele

atormenta-me de alegria banal
dá-me calafrios bobos
perpetua-te nos meus braços
no infinito de uma canção

21 março 2009

ain't got

it must be a really bad fuckying joke.




embriaguez boba de encanto
calor envolvente, de tesão
nostalgia contagiosa
ressaca de você

- eu não bebi hoje, ainda.

07 março 2009

blue star

veio assim,
como quem começa do ponto final.
vagarosas tardes, noites, madrugadas e manhãs sendo falsas espontaneidades
que cruzaram a linha da transparência.

como se sente?
fosse só isto, 
tome seu rumo de volta -

não suporto esses esgotados discursos.

silencio os lábios
que é pra poupar qualquer entendimento equivocado.
os tons das minhas notas 
adquiriram uma tensão notável.
estrelas ilustrando a paisagem
turva de tentar entender.

é melhor guardar pra depois,
ainda não é hora,
você me entende.

27 fevereiro 2009

baile de máscaras

o mundo está louco, é o que dizem por aí.
o mundo está se esgotando, lê-se diariamente.
não me incomoda isso, sabia? ah, tudo acaba um dia. essa idéia de eternidade nunca me convenceu muito.
o que me entristece é perceber que a poesia se esvaiu, se dissolveu nas mãos dos compositores e é jogada de boca a fora com um desdenho agoniante.

essa urgência jovial de abraçar o poste, o vento, a sombra, não combina comigo. gosto da brincadeira, do caminho, da descoberta, da conquista, do difícil, do que exige mais do que é só impulso.
já fui parte integrante e atuante deste motim - até aparecer um certo alguém que me mostrou um outro caminho, tão mais sedutor e envolvente que nem titubeei. mas isto não é sobre ela, nunca foi.


liberdade, liberdade. carrego até bandeirinhas ilustrativas.
pior de tudo é pensar que sim, a culpa - se ela existe - eu que carrego. diria eu, fosse moça de externar pensamentos, que fez-se demais, sem a menor necessidade. quisera eu acalmar e tirar os pedestais, distribuídos pela minha própria pessoa, que pus jogados por aí, dispostos numa ordem quase inintendível para outrens.

se a máscara cair, não se apavore e nem demonstre - sorrindo, graciosamente, diga que é carnaval.
afinal, há tanto folclore por aí que não há de se espantar quando comentarem que um novo chegou pra deixar a multidão boqueaberta.

não vem, que a linha ficou ali, bem pra trás.

16 fevereiro 2009

parte a parte

peguei para que lhe desse quando achasse propício.
um simples pedaço de papelão jogado no meio da calçada, peguei.
olheio com enorme admiração por vários instantes, tentendo desvendar as histórias de seus desenhos tortos, de suas cores reveladoras e seus esquisitos.

lembrei-me de minha parede azul, a única solitária dentro do cafofo. pensei em prendê-lo, junto à ela pra lembrar-me de tudo que passou aqui por dentro quando o encontrei. mas sabe, não gosto de ter de dar explicações para outrens, então achei melhor mantê-lo com mais discrição.

pus no bolso, mas logo arranquei de lá, como se já sentisse sua falta. queria observar cada um de seus micro pedaços, passear pelas curvas aconteuadas marcadas por quinas.
não contei a ninguém que ouvisse, deixei-o em cima de minha mesa, onde ainda está. quis dá-lo a uma pessoa, quis muito. ele faria-a entender que eu não podia pegar e jogá-lo no lixo ou simplesmente não ter me dado trabalho algum.

ele faz falta a alguém, sei disse. digo com tanta convicção porque já perdi coisa tipo essa. acho que seria capaz de inebriar e nausear de felicidade o dono deste pedaço, caso o conhecesse outrora. 

entendi foi uma coisa: mesmo se lhe desse de volta, não curaria a falta que ele fez, o espaço vazio que ficou ali, tanto tempo esperando para ser ocupado. no seu lugar, ficou o desgosto e a frustração e aquele lugar nunca será mais,verdadeiramente, seu.

nunca o quebra-cabeças será completo sem ele, mas ali já não lhe pertence mais... agora é só uma lembrança de tudo que poderia ter sido e que, por conta de um vento que bateu na hora inesperada, acabou por se desvirtuar.

12 fevereiro 2009

é o tédio mesmo

01 . Quem foi a última pessoa com quem você saiu?
- Ísis, Ale e reticências. Drinkeria Maldita com direito a karaokê, uou

02 . Você se acha "aproximável"?
-Alguns dizem que demais.

03 . Como você se sente sobre a última pessoa que beijou?
- huum.. sei lá.. com certo saudosismo, acho.

04 . Arrepende-se de algo que fez na última semana?
- Não lembro da última semana, beijos.

05 . Você é festeiro?
- Só nos dias primos... NOT!

06 . Gosta de clubes? 
- clube?! que mané clube... trauminha rs

07 . O que você pensa quando ouve a palavra "vadia"?
- Ar colega tudo.

08 . Você tem a mente poluída?
- magina...

09 . Você trabalharia como striper se fosse o único emprego disponível para você?
- Não, mas acho super válido...quer fazer pra mim?!

10 . Você tem sido pressionado[a] para fazer alguma coisa recentemente?
- Não só uma.. mas nem ligo.

11 . Quem é a pessoa mais gostosa(o) que você conhece até agora?
- Acho prudente não comentar.

12 . Como você se sente sobre a pessoa que te mandou isso?
- Com saudades, bitch.

13 . Você se comportou na noite passada?
- De leve.

14 . Gosta do seu nome?
- Não odeio, mas prefiro os sobrenomes.

15 . Tem alguém que você tá interessado[a] nesse momento?
- Essa parada de singular não é comigo.

16 . De quem é o quinto e-mail na sua caixa de entrada? Sobre o que ele trata?
- Camila Grether.. blocos de carnaval :D

17 . Qual seu número favorito?
- Nove.

18 . Você tem um Orkut?
- Você existe?! claro ¬¬

19 . Você odeia alguém?
- Not really.. dá muito trabalho.

20 . Você é um bom soletrador?
- Nunca pensei sobre.. acho que sim.

21 . Qual o trecho de uma música que você mais gosta?
- Um só é foda...mas ok: 'don't worry for nobody if it ain't the thing you like' - jamiroquai

22 . Qual seu pior hábito?
- Ser dúbia.

23 . Música que você ta ouvindo agora?
- You're the One - Tracy Chapman

24 . Você daria seu número de telefone na internet?
- Já dei.

25 . Você ainda fala com a última pessoa que namorou?
- Né?

26 . Você ama alguém?
- Sim.

27 . Você ja perdeu alguém que amou?
- Acho que em todos os sentidos da palavra perder. fazêoquê?!

28 . O que você faria se soubesse que seu/sua ex está noivo hoje?
- Teria pena da outra pessoa rs.

29 . Você ja traiu seu/sua namorado[a] com um cara/garota muito gostosa[o]?
- Serve ex namorado[a]?!

30 . Você prefere sentir dor ou ser anestesiado?
- Anestesiada, acho. Se bem que tenho dias masoquistas...

31 . Última pessoa que você passou a noite (na cama)?
- Ai que coisa indiscreta...bom, o Pamonha não sai da minha cama.

32 . Você gosta de competir?
- Depende da minha disposição.

33 . Você ficaria com alguém só porque não quer machucar o coração dessa pessoa?
- Acontece...

34 . Você ja ficou com alguém apenas para ter privilégio?
- Muito vaga a pergunta....porra, claro que sim!

35 . Você odeia ficar sozinho?
- Nem um pouco.

36 . Alguém já quebrou teu coração?
- Alguém tem superbonder aí?

37 . Você ainda ama essa pessoa com todos os pedacinhos do seu coração?
- Pra mim, amor é pra sempre.

38 . Quem foi a última pessoa que te mandou uma mensagem no celular?
- Melhor amiga *-*

39 . A última vez que você nadou numa piscina?
- Semana passada, numa piscina pra criança, dquelas de plástico (y)

40 . Pessoas aleatórias para amaldiçoar:
- Preguiça de pensar, então quem ler essa budega aqui... e eu também quero ver as respostas! não, eu não tenho nada melhor pra fazer da vida.

06 fevereiro 2009

era você, era eu.

impotentemente, sofri de um mal juvenil. deu-me um frio na barriga esses dias e deixei. achei engraçada aquela sensação que não sentia desde meus tempos de inocência. você me traz a novidade de olhar pra dentro sem medo, você vê mais.

toco-te procurando um xamego. não preciso ir muito. os esbarrões dizem que tão pouco ficastes parada. desenho-te na cabeça pra não perder-te de vista. busco sua voz no silêncio do meu quarto.
deixa eu gritar que é tudo isso?

03 fevereiro 2009

crônica dos urbanóides litoranos

o cenário com tons pastéis inspira o ar sereno dos matutos. a cidade não possui grandes centros comerciais, os carros não encontros tantos semelhantes. dentro deles, os passageiros podem ser catados durante os curtos percursos e os cintos são, meramente, decorativos - não têm esse costume ainda.

a praça grande da cidade, amarelinha como o resto quase todo da cidade(coisa de prefeito, mas o novo já estava colorindo tudo de azul bebê). é bonita, invejável até. nela, concentram-se o teatro local, um bar com música ao vivo, uma biblioteca e uma academia popular. sim, academias populares. 
pela noite, fica cheia. o pessoal vai em bandos que, ao se cruzarem, se cumprimentam, mostrando familiaridade.

o cinema hoje lotou. no único que há, exibia-se um filme atual às 19:19, e esgotou. terça é dia promocial - três contos a meia. a molecada formou uma fila de falsas esperanças, que chegava a descer a escada e fazer curva. conhecidos por todos os lados conjecturavam o que seria da noite então.

cada um acabou tomando seu rumo e, antes das nove, todos já estavam em casa, mas ninguém reclama. não deu, não deu.

percebi uma enorme divergência com a rotina de cidade grande(por mais que eu não me encaixe nesse padrão): por aqui, as famílias saem juntas. as mães ficam juntas enquanto as crias se concentam noutro canto, assim como quando éramos pequenos.

a rotina é extremamente repetitiva e limitada, mas eles nem percebem - coisa que turista também não percebe. não imaginam como é ter um leque recheado.
o jeito de virar gente grande também muda. não que sejam bobas. nós que somos precoces. a ingenuidade é fofa por demais, mas eles não desconfiam.  achariam prepotência. acho cativante essa pureza de ser, que não precisa se afirmar diminuindo outrens.

o conceito de beleza é mais sincero e justo. o costume não é de usar tanta química e cosméticos pra disfarçar imperfeições.as coisas beças são assim só por serem. mas não pense que digo que é falta de vaidade, longe disso. as meninas se reúnem todas pra descutir esses assuntos de menina.

as visitas não são surpresas ou raras. rotineiras pela falta de opção. assim, conhece-se muito mais parentes, enteados, agrgados e a casa estende as portas. essas, escancaradas mostrando a falta de preocupação.



morri de saudades da multidão, senti falta da calma.

25 janeiro 2009

santa tereza

a questão agora é muito maior que a tarefa. as expectativas sobre o que pode vir consomem cada ínfimo suspiro, desesperado por trégua.
os olhos custam revelar o movimento deste terminal. pesados, queriam só mais um cadinho de tempo pra sonhar.
o desânimo vem junto da tralha. o luxo do automóvel - nada luxuoso - fora como sublime para pés preguiçosos.
foi-me comovente o senhor que se aboletou cá ao lado. cara de ranzinza e jeitão de pessoa que já amanhecera tinha tempo. indagou-me sobre meu interesse em ficar com o jornal do dia que acabava de ler. afirmou estar todo ali, completinho.  encabuladamente, neguei. minha resposta teria sido diferente, fosse esta cidade outra.
o plano veio-me imediatamente à mente quando o sujeito deu-me as costas: esperaria que virasse a quine e, então, recolheria aquelas folhas de papel sujo de opiniões. algumas daquelas palavras, mesmo que de forma ilusória, eram gostosas de se ler, não podia negar.
foi então que se deu um daqueles engravatados do subúrbio. tomou o assento do lado indiscriminadamente e tirou a graça do plano.
fiquei ali até que fosse e trouxe aquele monte contra meu corpo, como que pra protegê-lo.

era então a hora propícia para dar uma leve caminhada até a plataforma e desfrutar um pouco de tabaco. faltava-me apenas uma garrafinha de refrigerante, um cobertor gostoso e um banheiro limpo. não é demais, é?

o horário da saída era, praticamente, igual ao dia anterior. as roupas não: na terra de tereza os trajes são mais casuais. 

tempo cinza por aqui e a esperança, meio angustiada, deseja, quase suplicando, que as águas não queiram cair, o que tornaria caótica a tentativa de independência de ajudantes. 
nunca fui de depender pra conseguir. ridiculamente, incomoda incomodar.
parto, outra vez. e, agora sim, a aventura terá seu devido início.

(...)

tédio e sono. oo local é mínimo, assim como as chances de terminar tudo depressa. desprovenho de paciência pra ficar de pé, aguardando os engomadinhos da serra resolverem trabalhar.

problema foi ela. crente que telefonaria, riria um pouco e nem precisaria ocnvencê-la de encontrar-me. afinal, eu estava lá, pertinho dela, com o dia todo pra nós duas. 
não quis contar o porquê, não perguntou muito de mim, não se interessou. não possuía mais aquele tom doce nos seus vocábulos. preferi não entender que mexia com ela. fazia tanto tempo... aquilo me atordoou. fiquei surpresa, chocada, amedrontada.

nessa, restou-me um espaço no cumprido banco. algumas lojinhas chinfrins na frente, uma mochila ainda semi cheia, o ir-r-vir dos transeuntes e a chuva.
se a frequência dos pingos fosse menor, arriscaría-me por aí. vai ver, qualquer minuto desses, ela cesse.
bem defronte ao meu banco há uma drogaria, daquelas antiguinhas. as prateleiras de madeira deixam, ali mesmo, dispostas toas as drogas disponíveis. uma escada de madeira clara, massissa, fica apoiada. o balcão segue o mesmo padrão, só que envolvido com vidro. não há atendentes dele, o que provoca profunda curiosidade em mim.
diria que é uma pessoa de idade avançada, daquelas que abrem uma lojinha na juventudo e não se desfazem mais, aquelas epssoas sem a ambição latente pela riqueza - contentam-se apenas com o suficiente para manter uma vida pacata e tranquila. 
ou, quem sabe, seja o filho ou neto, não sei. 


a espera tinha virado torturante e resolvi perambular pelas ruas. eu, meu guarda-chuva e o relógio ansioso. não podia ir longe, ou não saberia voltar. consegui achar uma praça super gracinha, onde fica a igreja principal. construção antiga, amarelada, com aspectos que lembram castelos. rodeei-a e descobri o que seria um pequeno amontoado de lojas. 

por dentro, menor ainda. o conceito de consumo parece ainda não ter atingido claramente essas bandas. vendas locais por todos os lados e sem grandes marcas estampadas.
em plena praça de alimentação, no horário de almoço, há duas outras mesas ocupadas.
numa, uma garota pouco mais nova que eu, sozinha, estuda alguma coisa que não consigo ver. na outra, duas mulheres e um homem gargalham fofocas urante a refeição.
agora, na mesa ao lado, sentou-se um cara dos labelos longos, guar-chuva na mesa e, sobre a mesma, uma bíblia que, concentradamente, lê.

da varanda à frente, é possível enxergar um hotel. estilo antiguinho: baixo, cumprido, janelas grandes e de madeira. pilastras com uma porção de detalhes nas extremidades. telhadinho todo de tijolos, as paredes todas pintadas de branco e as portas e janelas num tom fechado de vermelho.
alguns bancos brancos de praça enfeitam o jardim, de mata baixinha, quase que rasteira. aposto que é um dos mais tradicionais daqui.

rumando para a rodoviária, já me achava quase uma nativa, me entendendo pelos cruzamentos e tudo. passei por uma construção de 1928, com detalhes de ferro preto próximos do toldo e ladrinhos pequeninos das cores verde e rosa. saudosamente, cantei alguns de meus sambas preferidos da minha escola e, ali entendi que, independentemente de onde eu esteja, tudo sempre vai me remeter a isso aqui, a esse pedaço de chão, a terra de são sebastião. 

05 janeiro 2009

nem

se liga em mim não.
bata a porta devagar, mas lembre-se que ela não gosta de escancarar seus temores.

tudo parecia tão familiar: o lugar, os frequentadores, os ruídos, os móveis dispostos-  sempre iguais. 
o pêndalo inquitou-se e começaram as surgir situações novas, que foram me enchendo de medo, muito medo. pensava conhecer suas façanhas, seus trejeitos, seus carinhos, suas manhas.
impressionei-me com a capacidade do tempo em transformar-te numa completa estranha. não te vi no seu corpo.

não resisti. o desejo me consumia demasiadamente e nada mais importava. o que você fez?