09 abril 2009

vieste e fui

olhaste e não reparei
paraste e notaste - 
vi-te levemente ao longe

lenga lenga longa sem porquê

fui a um desconhecido
pedi-lhe meia dúzia de informações
alertou-me da bifurcação à frente
mal podia reconhecer-te
com olhos embriagados
dessa turbulência urbana

desta vez parei
e fiquei

na curta reta de chegada
todas as perspicácias
todos os esbarrões desfarçadamente propositais
tudo que se aliou e permaneceu instigando

meus bons dias desejam
ansiosamente aqueles que retribui
garantindo-me que assim será

os caminhos nos tomam tempo
e espero-te com a mesa posta
com um medroso sorriso 
que pula-me canto-da-boca afora
e um até logo apertado
sem muito querer

pancada forte anuncia
os grossos e apressados pingos 
que inundariam o trânsito 
de fim de tarde
de fim de semana
de feriado

aquela úmida sensação
de sentir-se só
mais uma anônima
desabrigada de seu abraço

o sol se esfumaça caindo
a ânsia levanta
como se erguesse
a lua que te traz 
acalmando todo o desejo contido
as vontades caladas
as falas interrompidas
os suspiros tremidos

não satisfazem-me notícias de jornal
desabafos de terapia
relatórios de esposa
casos de amiga


pego o melhor dos vinis
levanto a agulha
e encaixo o disco 
como quem põe criança pra dormir

espero os primeiros timbres
miro os olhos nos teus
disponho a mão que convida-te

só uma dança, digo acanhada

preciso do toque dos seus dedos
de um pedido atendido
desse encontro de pele

atormenta-me de alegria banal
dá-me calafrios bobos
perpetua-te nos meus braços
no infinito de uma canção

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