Acordou logo com um sorriso, daqueles bonitos, de encher a cara de coragem e exibir os dentes sem nem perceber. Direto encaminhou-se para a cozinha. No caminho, a sala. Em cima da mesa pequena de centro um embrulho e um bilhete em cima. Como esse não era dia ordinário, esquivou-se sem titubear. Embrulho feito à mão, era de se notar. Caprichado, porém.
Aquele papel lhe saltou aos olhos e subitamente as letras já quase se encostavam aos cílios. ‘Espero que goste. Com carinho, Eu’. Aqueles vocábulos só enriqueceram sua curiosidade. Meticulosamente, como é de seu feitio, foi descolando cada dobradura daquele quase-origami. O papel azul, com desenhos incompreensíveis escondia um segredo. Precisava desvendá-lo.
Por um momento foi tomado por um surto raivoso, de ansiedade, de uma agonia de aniversariante. Foi conjecturando mentalmente, e expressava nos olhares, nas sutis movimentações das suas bochechas, dos seus lábios, o que tanto podia ser. Depois chegou o medo: de não gostar, de ser incômodo, de ser aquém das expectativas, de ser menos.
Convenceu-se então de que não, só poderia gostar. Não faria sentido.
As cores foram saltando aos olhos e as quinas junto.
De repente, aquele olhar apreensivo se escondeu depois de ser bruscamente expulso por um olhar esbugalhado, brilhante, que acompanhava um abrir de boca impressionante, até.
Pegou-a, abraçou-a junto ao peito com um carinho tão imenso quanto indescritível. Foi quando o turbilhão de nostalgias saltitantes deu aquele rosto um contentamento contente.
Correu de volta ao quarto, fechou a porta e, em sua cômoda, cuidadosamente, depositou-a. Fica bem aqui, pensou.
Por fim, foi a vez do misterioso sorriso envolvente. Esse permaneceria pro resto do dia. O conforto trouxe calma e a calma fez seu papel de ajeitar.
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