16 fevereiro 2009

parte a parte

peguei para que lhe desse quando achasse propício.
um simples pedaço de papelão jogado no meio da calçada, peguei.
olheio com enorme admiração por vários instantes, tentendo desvendar as histórias de seus desenhos tortos, de suas cores reveladoras e seus esquisitos.

lembrei-me de minha parede azul, a única solitária dentro do cafofo. pensei em prendê-lo, junto à ela pra lembrar-me de tudo que passou aqui por dentro quando o encontrei. mas sabe, não gosto de ter de dar explicações para outrens, então achei melhor mantê-lo com mais discrição.

pus no bolso, mas logo arranquei de lá, como se já sentisse sua falta. queria observar cada um de seus micro pedaços, passear pelas curvas aconteuadas marcadas por quinas.
não contei a ninguém que ouvisse, deixei-o em cima de minha mesa, onde ainda está. quis dá-lo a uma pessoa, quis muito. ele faria-a entender que eu não podia pegar e jogá-lo no lixo ou simplesmente não ter me dado trabalho algum.

ele faz falta a alguém, sei disse. digo com tanta convicção porque já perdi coisa tipo essa. acho que seria capaz de inebriar e nausear de felicidade o dono deste pedaço, caso o conhecesse outrora. 

entendi foi uma coisa: mesmo se lhe desse de volta, não curaria a falta que ele fez, o espaço vazio que ficou ali, tanto tempo esperando para ser ocupado. no seu lugar, ficou o desgosto e a frustração e aquele lugar nunca será mais,verdadeiramente, seu.

nunca o quebra-cabeças será completo sem ele, mas ali já não lhe pertence mais... agora é só uma lembrança de tudo que poderia ter sido e que, por conta de um vento que bateu na hora inesperada, acabou por se desvirtuar.

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