o traje impecável mostrava, da fivela presa no cabelo ao bico fino do salto, toda a beleza que costumava se ofuscar dentro dos jeans antigos, camiseta básica e all star sujo.
aquele não era um dia ordinário. não era também uma data comemorativa.
chegou, acompanhada da amiga igualmente produzida, à festa. dispensável dizer que logo tomara a atenção de boa parte dos convidados que, já levemente embriagados, se dispunham atrapalhadamente pelos cantos.
alguns comentavam, como cochichos. outros não conseguiam emitir som algum. havia aqueles que nem se davam o trabalho de reparar, pois o estado etílico já era notável.
as músicas foram passando e a atenção foi se dissipando. os copos vinham e vazios, rapidamente, voltavam às mãos dos garçons. chegou a decorar seus nomes até. tratamento especial recebeu a noite toda. a pista era como um entretenimento bom de assistir. a altura do salto não as permitia participar daquela orgia pacífica.
ficaram então as duas ali - sentadas, bebendo, observando. mal trocavam palavras. sussuravam onomatopéias como se a comunicação não precisasse ser concluída pra que houvesse entendimento.
não foram as primeiras a se despedirem, mas não viram o sol nascer.
dia seguinte chegou e as fantasias foram depositadas no fundo do armário. a postura se curvou um pouco e e o soriso já mostrava os dentes.
foram então ao boteco de esquina, com banheiro sujo, copos feios e garçons mal educados.
falavam tanto e tão alto que chagavam a reclamar do barulho. ninguém as notava senão por isso, mas o conforto de poder sentar com as pernas dispostas sem tanta classe era precioso demais.
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