19 setembro 2008

eliem

Coitado. A pior das sensações era a de sentir-se inútil, imprestável. Não lhe era suficiente a boa vontade, o querer ajudar e não saber nem por onde começar.
Era estabanado. Também, como havia de ser.

Seus dias eram todos regrados e calculados dentro de si, onde a memória não lhe falhava. Acorda cedo, cerca de seis, sete da manhã. Pega o jornal - gosta de estar muito bem informado -, mas nem sempre consegue lê-lo o quanto queria. Toma seu café de todos os dias e começa o ritual de saída. Abrir a gaveta, pegar uma bermuda; em outra, a meia; até que o figurino fique todo completo.

Sai então de casa, cumprimentando metade das pessoas que passam. Praticamente fora criado ali e, agora, com seus cinqüênta e sete anos, é figura batida pela redondeza. Desce a rua e ruma pra sua caminhada matinal, diurna e sagrada.

As mais diversas pessoas passam e alguns,que o conhecem, chegam a achá-lo antipático ou até mesmo mal educado. Ele nem sempre cumprimenta as pessoas. Mas garanto: nunca foi por falta de querer.

Voltando, pára no bar de esquina - onde já é quase sócio, de tanto que fica lá. Quando passa é um alvoroço só, gritando seu nome, chamando-o pra só uma cervejinha. Essa se estende e, quando percebe, foram-se inúmeras durante papos com um ou outro, ou sozinho mesmo.

Tem um lado carinhoso e atencioso que faz com que ele sempre compre alguma coisa - seja uma garrafinha de água de coco ou outra coisa boba assim - pra levar para sua mãe, que é sua vizinha. Não tem é muita paciência. Toca a campainha e, antes mesmo que alguém pudesse alcançar a porta para atendê-la, ele já pôs o presentinho em uma das cadeiras dispostas na varandinha de entrada e rumou para casa...

Pela tarde, tira um cochilo. Não que esteja ou se sinta velho, muito pelo contrário. Sua cabeça é acelerada demais, seu corpo não consegue ficar quieto por muito tempo, mas ele sabe das limitações que tem. Entende que aquele mundo ao redor dele, aquele que já mapeou mentalmente, é seu limite. Esse sono é mais pra descansar a cabeça, não surtar.

Mais tarde ele volta a se arrumar: uma blusa branca(só tem blusas brancas, que é pra não ter como confundir a cor), uma calça jeans, cueca, meia e sapato. Gosta de ficar bonito, e fica.
Repete a descida da rua, procurando um bar para beber. Conhece todos os existentes aqui por perto. Vai de um pra outro procurando companhia para beber. É como se fosse um ópio que o faz conseguir levar as coisas.

Muitos o chamam de alcoolatra, eu digo que, dentro de suas condições, ele se vira e passa seus dias feliz, como seria difícil ver outrem conseguindo ter.

Nenhum comentário: